sábado, 24 de março de 2012

a última vez de dizer


Tentei lhe escrever um poema
mas o tempo inteiro me doeu
como se já tivesse passado 
a última vez de dizer... 

mal soube quantas horas
por cima da minha vontade
foram precisas para apagar letra a letra minha declaração

tenho uma folha de papel em branco
e, no entanto, dói-me o tempo 
que não aprendo
que não te ensina 

a escolher os seus sapatos,
a acreditar que sou sua;
a acreditar que sou sua, 
a escolher os seus sapatos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Esquadros

São Paulo
12 de fevereiro de 2012
Domingo, 7 horas da manhã


É cedo para falar em saudade.
É cedo para não falar em saudade.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Amor e Juventude

Talvez, num dia qualquer, eu encontre alguém que me envelheça. Mas esperar nunca foi preciso. À mim, apenas peço que você ou ame ou entenda, porque dói, ao amor, se fazer compreensível.

E quando eu estiver a ponto de me salvar, sorrirei para você antes de vencer a ponte. Saberemos, os dois, o caminho do esquecimento e o quanto nos custou deixar, aos velhos tempos, todas aquelas conversas sobre amor e juventude.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012


saber que vai passar não me consola
saber que vai passar não me
saber que vai passar não
saber que vai passar
saber que vai
saber que
saber
saber que
saber que vai
saber que vai passar
saber que vai passar não
saber que vai passar não me
saber que vai passar não me consola


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Dizem-nos os sonhos que o nosso amor acorda nas madrugadas, escapa em gritos urgentes de eu te amo. Horas fica, no silêncio em claro até, outra vez, adormecer exausto sob o sol do dia branco.

O destino, que também usa o nome de acaso, assim nos dá sorrisos de canto de boca... é um menino traquino a nos revelar. A gente nem gosta, nem desgosta. Só vive a conjugar o substantivo no ventre e nos braços como um filho.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

escorreu. primeiro, pelo canto direito do olho. depois, pelo outro. caminhou, sem empoçar, fina, transparente e calma pelo nariz. a cabeça estava no travesseiro, mas ela não chegou a ficar triste, nem pensativa. lia um romance no silêncio de outra madrugada. era o mal de qualquer segunda-feira. aquela lágrima envolveu-lhe os olhos duas ou três vezes antes, sem sucesso e sem secar. "o que está acontecendo?"- a pergunta era para ele, mas ninguém precisava responder. se sabia que ou não se sabia nada. e, em nenhuma conversa, cabia qualquer dúvida. podia escrever um recado inteiro, jogando-lhe na cara... imaginou: uma mensagem apenas com a frase: "o que está acontecendo?" e veio-lhe imediata a resposta, não a própria resposta que seria escrita, mas o tipo dela. seria uma outra frase, nem muito longa, nem muito curta, um típico comentário sobre algum fato de política em destaque no final de semana. "não entendi", pensou quase sinceramente e sorriu, porque tudo era sua própria imaginação, de modo que não havia como não entender. política. menos que uma frase-pergunta. bastava enviar-lhe a palavra política e ele saberia. ele saberia que. ou não saberia nada. nesta retórica, a lágrima secou sem pesar. era assim há muito tempo, mas vinha. ainda assim, vinha e, às vezes, ela ouvia estanque um desespero repentino no seu caminhar, mas que morria, e só morria, na mesma hora em que a lágrima rolava degolada olho abaixo. foi o máximo que aprendeu neste tempo.

"é melhor calar-se. o senhor não tem domínio para falar deste assunto." foi uma réplica dura, em tom que beirava a arrogância, dirigida à alguém da plateia pelo palestrante. apesar do aparente início de conflito, para ela, a discussão seguiu muda, com o homem gesticulando ao fundo do seu pensamento... isso aplica-se a qualquer assunto, inclusive... ela não sabia e, piorava, desistindo de futurar. ao tempo, basta viver presente.

"não está". nem teve palavras para deixar ao porteiro. parou insípida com a surpresa e saiu sem reclamar. colocou uma música no fone, colocou o fone no ouvido. não tinha vontade, nem para quem se queixar. chegou em casa sem o pacote que lhe deveria alterar a noite. era terça-feira, ela achou que estava salva.

- não estava. esqueceu-se de deixar minha encomenda.
- ai... foi mesmo, mas porque acabei não saindo... por que não interfonou? estava em casa!
- estava? o porteiro não me disse.
um breve silêncio.
- ah, tudo bem, passo aí perto amanhã de novo. mando uma mensagem para te lembrar.
- poxa, me desculpe...
- tudo bem... dá para esperar, não é nenhum remédio para o coração.

passaram-se duas semanas inteiras. teve companhia nas folgas. festas, conversas, obrigações... sim, ele esteve bem. se sabia que ou não se sabia nada. encontraram-se quase que de propósito numa tarde de quarta-feira. tinham muita saudade, mas não nos olhos. conversaram sobre tudo, muito e com naturalidade suficiente para se magoarem o bastante. assim, contentes e aturdidos, despediram-se. até os próximos meses, bons amigos.


em 28/06/2011.