terça-feira, 30 de dezembro de 2008

conto do amor ao fim


De longe, era mesmo uma casa abandonada. Tudo meio arruinado. Rangendo, sem audição. Morava um casal que era tão apaixonado, que, dizia a velha, um não comia sem o outro chegar. O moço era pescador, saía todo dia cedo, antes da manhã levantar. Aí, se tomava café e o resto todo esperava a hora dele voltar. Às vezes, durava até a noite. Ela dizia que não sentia fome. Nem água quase não bebia. Eu pensava que só podia ser saudade a pessoa passar o dia todo sem comer nada. Viveram bem uns cinco anos. Foi numa das primeiras madrugadas de março. O moço saiu para pescar. Dizem que o tempo não estava ruim, nem bom. Deus sabe lá, se emendou uma madrugada na outra e nada do moço chegar. A Rita, que já era magra, agüentou bem uns quatro dias sem comer. Depois, caiu doente. Deram-lhe muita papa e folha. Ela saiu da cama e ele ainda não tinha voltado. O povo todo dava mesmo o moço como morto. Nem ele, nem o barco. Viram ele na maré de longe. Só tinha mesmo a roupa do corpo. E do mais, todo mundo sabia que ele gostava mesmo era dela. Mas, a Rita não contou conversa. Quanto mais diziam a ela para rezar o corpo, mas ela praguejava ele. E falava tão mal, tão mal, que parecia falar de outro. Dizia mesmo que homem era tudo igual, que ele tinha era arranjado outra, tinha largado ela por uma rapariga qualquer. Bendizia não ter dele nenhum filho para carregar o desgosto. O povo chegou a achar que ela estivesse doida ou então que os dois já não eram tão comungados quanto parecia. Mas, quando perguntavam se ele já não gostava dela, ela ficava era mais aborrecida. Dizia que homem sempre gosta de quem lhe põe a mesa e forra a cama. Era de espantar a tamanha desvergonha com que ela contava a humilhação. Porque mulher nenhuma acha bom ser trocada. Mas, a Rita não se importava em falar e repetia tanto, que a vizinhança chegou mesmo a acreditar nela e resolveu parar de rezar o defunto. Daí, a Rita ficou uns três meses. Ninguém nunca viu ela chorar. E, numa manhã, como a dele, ela arrumou uma trouxa e saiu antes do sol. Disse ela a uma vizinha que não ficava na casa mais não. Que não queria está nela para ver ele voltar. Era bom que ele quietasse no lugar onde estava. Nisso, já se vão muitos anos. A casa já está velha. Era tão bonitinha. Bem certo, que com esse tempo, o moço não voltou. Disseram depois que tinha uns pedaços do barco pelo mar. Mas, não se sabe, com aquela história toda da Rita. Ela bem que sumiu no mundo. Ninguém tem notícia. Mas eu torço mesmo para ela estar certa, viu? Ela devia era saber. É melhor o amor acabar, que o moço morrer.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo

Ano Velho já vai embora.
Toda vez, levo ele até a beira da estrada. É chão.
Bagagem ele quase não leva.
Diz sempre para eu entregar ao que vier quase tudo que ele juntou.
A despedida, para não doer, é combinada.
Vamos até a praia. Eu mergulho e ele se afasta.
Já vai distante, quando olho de novo a areia.
Lá, ele deixa um embrulho descolorido.
Eu nem preciso abrir para saber o que tem dentro.
É clichê. Termina sempre da mesma forma.
Um dia, diz ele, que foge, antes do fim, a me levar.
Eu na areia molhada lembro isso.
Balanço a cabeça, com uma lágrima e um sorriso.

sábado, 27 de dezembro de 2008

matando carrapatos


Para me lembrar que é um cachorro, Albert de vez em quando adquire uns carrapatos. Eu odeio. Sempre penso "Nunca mais crio cachorro na vida". Engulo o meu nojo e repulsa para enfentar os parasitas com frieza. Desta vez, um novo remédio, segundo o vendedor, um tratamento de choque para a hora do banho. Lendo a bula, encontro um "ATENÇÃO: CÃES DE PEQUENO PORTE PODEM APRESENTAR DEPRESSÃO ACENTUADA POUCAS HORAS APÓS A APLICAÇÃO."
- Hein?!
Olho para Albert em tom irônico e cruel:
- Você gosta deles, é?

A palavra cala

Não sou palavra nenhuma. Palavra é tudo que se enche ou se esvazia por meros significados. Não vale os segundos de audição. Não dura o tempo da fala. Não se compromete com a escrita.

Delas, pode-se escutar qualquer coisa. Não dizem nada. Nem sobre mim. Nem a você.

As palavras só servem para nos calar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Ser artista nem sempre vale a pena.
O que sempre vale a pena é conviver com a arte.
Se a arte não lhe serviu como ofício, deixe-a lhe servir como alma.
tenho paixão pelo acordar.
por tudo quando desperta.
o dia, a noite, o vento.
tudo que levanta e se põe de pé.
de pé em pé até se deitar.

Fim de Festa

O Natal passou.
Queria um post sobre o amor, mas ele não veio.


Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.

Boas Festas - Assis Valente (
1932)

Alguém me disse que eu não era generosa


A minha generosidade é utópica. Talvez não sirva nem a mim, nem aos outros. Talvez nem se chame generosidade. Seja apenas aceitação. O certo é que toda generosidade prática me parece ultrapassada. Acho até que esta generosidade só tem a ver com previdência. Minha visão de futuro tem sido cada vez mais escassa. Disto não se salvam as relações. Não confio no tempo. Ele me tomou muita gente. Por ele, fui deixando de esperar os retornos. E, ainda que quisesse, não poderia ignorar a sensação de que não envelhecerei até a hora da colheita. O tempo só me confirma. Talvez eu morra jovem.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Instinto de Natal

Dei um presente de Natal para o meu cachorro. Um alter de borracha. Ele parecia se divertir, mordendo animadamente o barulho do brinquedo. Quando deitei, ele ainda estava muito entretido. Dormi satisfeita. Só pela manhã, vi os pedaços pelo chão do quarto. Parece que não durou nem uma hora.

- Meu Deus, Albert, quando você vai aprender a ter cuidado?!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Ao Meu Amigo Imaginário: Feliz Natal!


Há algum tempo, um estranho persegue a minha mente. Um dia, o vi passar. No outro, ouvi sua voz. Certa vez, ele estava na minha frente na fila do supermercado. Observei-o atentamente. Neste dia, descobri seu nome. Descobri onde morava. Passamos meses sempre nos vendo pela rua. Às vezes, em lugares inesperados.

No começo deste mês, dada à insistência do destino, resolvemos nos aproximar. Não houve uma apresentação oficial. Apenas um "Olá. Tudo bem?!" Foi engraçado. Daí em diante, sempre trocamos algumas frases, corriqueiras, divertidas e triviais. Assim, vamos nos acostumando um ao outro. Teve um dia que quis contar uma coisa para ele. Na verdade, já tinha pensando outras vezes. Só que naquele dia, teria contado, se o tivesse visto. Cheguei a caminhar pela rua, mas nada.

De umas semanas para cá, quando vejo uma coisa, penso nele. Sempre penso nele. Ele é um estranho. Outro dia parei para analisar. Desde que o conheci, fiz várias coisas por causa dele. Eu nem sabia. Ele é um estranho. Outro dia, ele tinha um livro na mão. Procurei na internet. Li um artigo sobre o livro. Li o livro. Não gostei muito. Queria ter dito a ele. Vai ver ele também nem gostou. Fiquei uns quatro dias sem vê-lo. Fiquei triste. Quando a gente se encontrou, ele fez uma cara do tipo "você sumiu". Eu ri meia hora. Quando cheguei em casa, escrevi mais um texto para o blog. Ele nem sabe que eu escrevo.

Ontem, saí rapidinho para comprar umas coisas. Mal pensei nele. O vi quando dobrei a esquina. Ele estava do outro lado da pista e atravessou para falar comigo. Fiquei um pouco nervosa porque normalmente a gente não pára quando é assim na rua. Ele explicou tudo: "Oi. Então, Paula, Feliz Natal!". Claro. O natal. Eu nem gosto que me chamem de Paula, mas, coitadinho, ele ainda nem sabe disso. "Sim. Para você também. E Feliz Ano Novo!". "Não. A gente ainda se vê antes do Ano Novo". É? Sorri um "Quem sabe". Ficou no ar o tempo de um abraço. Mas, era demais. Afinal, ele é um estranho. Quando me afastei um pouco, ele disse mais alto "Olha, ano que vem a gente se conhece". Ri uma hora. Óbvio. Ele não é um estranho. Na próxima, darei a ele um abraço de Feliz Ano Novo!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

meu pé direito

Sentada escrevendo, muito concentrada, derrubei um copo. Quase não me assustei. Nem me incomodei com o vidro no chão. Somente na hora que senti o sangue escorrer entre os meus dedos, parei para perceber os cacos.

a história da menina que escolheu.


Quando uma pessoa escolhe, a outra é obrigada a escolher. A escolha não é um direito. É mesmo um dever, que a maior parte das pessoas finge não cumprir para não carregar o peso da responsabilidade. Em uma das minhas escolhas recentes, decidi não fazer favores para ninguém. Não falo de favores práticos, como pegar uma coisa, fazer algo, uma gentileza. Não. Falo dos favores implícitos na vida cotidiana, aqueles que nem sempre te pedem, mas que entram na sua escolha. Acontece quando você escolhe fazer algo por um motivo que não é exatamente seu. Fiquei mais egoísta depois desta escolha. Confesso. No entanto, tenho acreditado no poder de transformação do egoísmo temporário. Acho mesmo que um tempo de egoísmo pode trazer novo significo a um sujeito. Por enquanto, com esta escolha, vou fazendo história. Afinal, quando uma pessoa escolhe, a outra é obrigada a escolher. Quando a outra escolhe, a pessoa é obrigada a escolher novamente.
Medo é um mal necessário. Por segurança, quando não o tiver, finja.

gata e rato

Corro atrás de ratos. Eles sempre ganham. Eu sempre corro quando os vejo. Não sei porquê. A perseguição nem me faz tão bem. Ainda penso em estratégias. Eles usam sempre a mesma. O que eles têm me ganha. Há quem diga que eles são até bonitinhos, mas pra mim são mesmo duvidosos. Opa! Acho que vi um ratinho...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Eu apago. Eu acendo.
Nem quero nada a mais.
Não quero a preocupação de alguém.
Permita-me a escuridão que nenhum olho me enxergue à noite.
No dia, há muito, a minha alma é despercebida.
Que assim fique.
E eu possa me guardar no céu que ninguém cerca como meu.
E não brilhe. Nunca. Nem por brincadeira. Nem por covardia.
Estou a me apagar. Devagar. Pela inspiração.
Vão ficando, sem cor, no chão, os meus ciscos.
Não me despeço. Não os preciso.
Já preciso de tão pouco. Ou de tanto.
É certo que não me importo.
Faço tudo pelo sentir.
Sentir me basta. Sentir me cansa.
É brilho quente. Precioso e inútil.
Só dele me apago. Só dele me acendo.
E é inútil. Servirá para nada. Servirá somente sentir.
Enquanto durar as paciências.
Eu acendo. Eu apago.
E todos os olhos me perdem de vista.
Uma coisa que sempre me entristece é ciúme. Ciúme não faz bem a ninguém. Eu evito. Quase nunca sinto. Quase nunca permito que sintam por mim. Não me serve, nem envaidece.

Além do mais, eu nunca achei que ciúme pudesse aproximar as pessoas. Para mim, sempre foi motivo de renúncia. Sintoma de desatenção.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Ego

O que me afasta dela, sou eu mesma.
Eu como sou agora.
É insuportável.
Não me aceito fora de mim.
Não suporto me ver em outra.
Um pé no chão e um pé virado para cima.
Olhos atentos, fixos um ponto à frente.
Permanece e vai mais longe.









leio. procuro-me. nenhuma frase, nem uma palavra. não me escreve. não fala de mim.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Queda

Tão jovem. Sentou-se arriscadamente na balaustrada.

Enquanto, de longe, eu pensei em dizer. Um acidente. Um espanto. Todo mundo falava muito alto. Na festa. Quando ele caiu.

Acho que foram quinze ou vinte. Segundos de nada a fazer. Desejei que fosse o trigésimo andar. Desejei que ele fosse um anjo. Ainda mais leve. Desejei que o mundo acabasse. Antes da hora.

Tudo seria milagre.

Ele. Tão só. Abraçado ao solo. Irremediavelmente.

Não falem. Não questionem. Não. Nada faz. Não há sentido.

Um susto. Um sonho. Ainda bem. Foi sonho.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Com açúcar, com afeto

Descobri uma coisa.
Gosto de estar ao teu lado. Sem perguntas, sem respostas. É tudo.
A despreocupação em saber é de infinita beleza. Intensa. Singela.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

alguém esteve lá

Tem um lugar em mim que sempre faz silêncio. Às vezes, ele me interrompe. Eu paro para ouvi-lo. Parece desabitado e, no entanto, há alguma coisa diferente. Tenho a impressão de que, quando ele me chama a atenção, é porque alguém passou por lá. Eu nunca vejo em tempo. Quando eu chego, seja lá quem tenha sido, já se foi. Eu só encontro o silêncio. Escuto. Canso. Retorno. Sempre pensando que não descobri nada.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Não sei e o tempo passa.
Calmo, calmo.
Azul ou verde piscina. Tanto faz.
Estou deixando tudo para entender mais tarde.

ouvi com sabedoria ou uma analista amiga minha



"Para ser feliz, você não precisa ser a pessoa dos seus sonhos.
Basta estar um pouquinho perto dela."


corpo vida

eu gosto da sabedoria do corpo físico.
eu não devia separar, mas o corpo é infinitamente verdadeiro.
Um dia, ainda viva, eu serei só corpo e o mundo, verdade.

o corpo é a concretude do espírito.
Ele é tudo e, às vezes, não o entendo.

Nem sempre a gente sabe.
Mas, a gente vive para praticar o corpo.
Até completar um ciclo.
O espírito é um eterno aprendiz.
De quando em quando, o corpo o ensina.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

somos triviais. eu e você. somos. devemos conviver assim. vamos parar de brigar, vamos parar de brigar, vamos parar de brigar. com a nossa história.

A história só serve para nortear as mudanças.

***

não somos triviais. eu e você. não somos. não devemos conviver assim. não vamos parar de brigar, não vamos parar de brigar, não vamos parar de brigar. com a nossa história.

A história só serve para nortear não mudanças.

***

somos triviais. eu e você. não somos. devemos conviver assim. vamos parar de brigar, não vamos parar de brigar, vamos parar de brigar. com a nossa história.

A história nos servirá para quê?


Dica para começar bem a semana:



"Algumas pessoas são mais interessantes de longe. Preserve-as."


domingo, 14 de dezembro de 2008

Como os domingos acabam?

A paixão do domingo.
A agonia do domingo.
Ouvem-se seus últimos suspiros.
Chega o anjo.
O domingo sopra:
- Leve-me embora.
O anjo responde:
- Calma, meu caro domingo, aproveita, ainda lhe restam 4 minutos!


***

Os domingos vão para o céu ou para o inferno?


e agora os meus olhos querem chorar quase todo tempo
vendo o que é feio e o que é belo
eles se emocionam mais que eu.

o meu corpo tem vida própria
misteriosa e desobediente.
todo sentimento esvaece
triste, triste, triste...
quero uma besteira para comer
e nem posso.
passa rio. passa nuvem. passa.


(juro que um dia paro de escrever coisas infantis. insisto em sobreviver a minha infância.)

superficial

Para que me descobrir? Eu fico tão bem debaixo deste cobertor.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

a senhora ao lado

- Mulher apaixonada não presta, minha filha. Fica burra.
- E homem, não?
- Homem? Homem nem se apaixona. Quando muito, gosta um bocadinho de você.

Ouvi de uma moça velha


A dificuldade de se comunicar com um adolescente é que, enquanto ele não ouve o que você fala, você já não compreende o que ele quer dizer.

As crianças não. Elas entendem tudo. E, na maior parte das vezes, não aceitam. As crianças são muito revolucionárias. Mas a gente nunca dá ouvidos a elas.

O ser humano vai estragando à medida que cresce.

ao que é vivo, tenho amor espontâneo. um olho, um zelo. é da vontade ver o vivo se mexendo. e, em sentimento, ainda que não atenda, amo tudo que tem vontade. amo ele, outros e outras que cabem nos inesgotáveis círculos.

do amor, tenho apenas o sentimento. me parece simples de cultivar. sincero fruto da relação abnegada. por vezes, nem recíproca.

o amor não dói. o que dói é outra coisa.

ao amor permissível. quanto mais eu tenho, maior me sinto.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

insetos despertam a minha agressividade.
Odeio insetos. os que fazem barulho. os que voam.
os coloridos. os cor de folha seca. os verdes.
Odeio insetos. eles insistem muito.
gostam tanto de doce quanto eu.
roubam-me as flores.

conjugar

flor da hora antes da colheita
cor em cheiro, cheiro em cor
é de si o mais intenso perfume

eu exalo tu exalas ele exala nós...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ontem

Ri de você várias vezes, dia.
É novo e ingênuo.
Tão inseguro de si. Nem se vê passar.
Não é desdém, nem digo, saudade.
É verbo no tempo do ia.
Estado de quem já não sabe mais.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Inspiração

Terminei um livro que me acresceu vários centímetros. Não sei quantos e presumo-os imperceptíveis aos olhos. Na verdade, senti pelo dilatar dos meus pulmões, respirando a leitura. Era tanto ar, tanto ar, que, para não sufocar, fui-me expandindo por dentro.

Ao final, suspirei fundo. Um suspiro úmido, cuja duração contemplou a infinita beleza que a individualidade tem ao se compreender
maior.

MAUGHAM, W. Somerset. O fio da Navalha.
Tradução Lígia Junqueira Smith. São Paulo: Globo, 2002.
- E então, menina, o que você vai querer ser quando crescer?
- Livre!

Apego


Aceitei a minha dificuldade em desvencilhar-me das coisas. Esforço inútil ou comedido demais. Quando quero o sim ou o não, repito. Repito, repito, repito... Repetir é atuar.

Sou feita de reservas. Com elas, espero as visitas do tempo. Quando ele chega, beijo-lhe a mão. Ele me olha, acomoda-se e fala-me com discernimento.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Juízo perfeito



Há que se controlar as paixões.
Com o tempo, invariavelmente, elas ficam ridículas.



"Em negócios às vezes a esperteza dá bom resultado, mas na arte a sinceridade é, não somente a melhor política,
mas a única."

O fio da Navalha
-
W. Somerset Maugham

sábado, 6 de dezembro de 2008

tempo da delicadeza

Há quem precise estar dopado. Ontem, compreendi. É descanso, paciência, tempo dilatado. A lenta sensação interna de estar bem, uma impressão de poder fazer tudo e, talvez o mais impressionante, o querer não urgente. É como lembrar e esquecer as próprias vontades, adormecer os sentidos e a sensibilidade. Pode ser reconfortante tanto quanto um lençol branco limpo, que na manhã seguinte acorda mal passado.


Amo os meus desejos. Quero tê-los.
Mesmo inconstantes, mesmo sussurados.
Embora, na maioria das vezes, sofra-os ansiosamente,
com a minha demasiada pressa.


Todo o sentimento - Cristóvão Bastos e Chico Buarque/1987

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Anjo Exterminador

Eu assisti há uns cinco anos.
Não teria memória para contar o enredo.
Não lembro o nome de nenhum ator.
Não lembro o rosto de nenhuma personagem.
E, no entanto, as imagens aparecem re-construídas.
O que traz à memória, r
oda, vira, mexe:
Buñuel, as personagens, as minhas portas abertas e a famosa barreira invisível.

- ...

- Sim, Diretor, compreendo, mas não poderíamos aproveitar para fazer logo a outra tomada da cena anterior, enquanto o rebanho de cordeiros não fica pronto para filmar?

- ...

- Ok, estou pronta.

- ...

- Ah, desculpa, me esqueci de tirar... Agora, vou: do início sem a máscara!

- Ok. Gravando!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Na farmácia: o que não tem remédio.

Na segunda-feira, acordei me sentindo mais magra. Achei estranho, afinal segunda-feira o mundo inteiro acorda naturalmente mais gordo. Descrente, deixei para lá. No entanto ontem, olhando-me no espelho, novamente tive a boa impressão. Surpresa com a possível peripécia involuntária, eu, profunda conhecedora do meu próprio peso, pensei em ir tirar a prova em uma farmácia. Coincidência ou não, precisei comprar um remédio no início da noite. Fui.

Farmácia. Antes de tudo, a balança. Coloco-me a espera, com a paciência típica de quem sabe que já ganhou. À minha frente, num tempo bem particular, uma menina de mais ou menos 19 anos, sobe descalça como se reverenciasse um oráculo. Em alguns segundos, ela comemora a consulta:

- Gente! Emagreci três quilos comendo de tudo! - Fala alto, sem pensar.

Silenciosamente, meu primeiro impulso: "Mentira!". Logo depois: "Quem sabe". Visivelmente mais leve, ela desce da balança rapidamente. Eu, tomando parte da minha vida, subo. Desço sem falar, mas lanço um olhar irônico à balança: "Da próxima vez, antes de subir, lhe faço uma mesura".

Dialética. "Não, eu não estava pensando em emagrecer. Não, eu não fiz nada para isso. Sim, eu achei pouco ter perdido pouco mais de um quilo, mesmo sem fazer esforço". Tentando conscientizar a minha pretensão, dirijo-me ao balcão e peço um antiinflamatório. Chega rapidinho e não é caro. Quase feliz, vou ao caixa.

Pequena fila e, quem vejo à minha frente?, a menina. Passo o olho em sua cesta: tintura de cabelo, hidratante e várias caixas de chá verde. De saquinho! Fico impressionada. Na fila, uma amiga mais alta, mais loira e magra, que eu não tinha visto até então, lhe faz companhia.

- Odeio chá verde!
- Eu não vivo sem, viciei. E realmente, acho que emagrece.
- Respondeu a menina, ainda gordinha, com feliz sinceridade.
- Aff! Não sei como agüenta, não tomo nem aqueles de supermercado...
- Ah: Me pesei, perdi três quilos!
- Animação de quem emagreceu 30.
- Foi?
- E comendo de tudo! Juro que não passei fome hora nenhuma esta semana.
- Mas eu te disse que você estava mais magra. Pensei até que tivesse perdido mais... O ruim destas dietas de reeducação alimentar é a continuidade. A primeira semana é ótima, porque a pessoa vem comendo de tudo livremente, aí, o mínimo que corta, já faz a diferença. Mas, da terceira em diante complica: mesmo seguindo tudo certinho, os resultados demoram muito. Priscila mesmo não agüentou, disse que passou várias semanas sem emagrecer nada...


A menina não teve tempo de raciocinar. Interrompendo a fala da loira, a caixa sorridente disse apenas "Boa noite!" e ela, ainda segura com a nova silhueta, foi pagar a compra. Logo atrás, eu era uma interrogação bege:

- Meu Deus, esta loira está com medo de quê?

mormaceira

Finge tão bem que não pode dar um passo, que chego a esquecer que tem pernas. Só me lembro que as tem, quando lhe vejo usando-as para fugir.

Ou se quer ou não se quer.

a morte aumenta a espera

era o branco da espera
era o negro do ciúme
nenhuma cor lhe vestiu na hora da briga
foi nu, feito bicho, desperdiçar a força

era o vermelho do sangue
era o barro da terra
nenhuma cor lhe cobriu a mancha
foi o fim, feito juiz, sentar-se entre a gente

a desistência não teve cor
tampouco se viu por perto a cor dela
fora a presença da própria sombra a lembrar-lhe a infância
a criança, no tempo da pausa, o fizera corar

por pouco não fora o suspiro a chamar a morte
mas não se sabe como, nem porquê
enquanto um sonhou, o outro se fez livre
sendo, o céu, vivo fim de tarde.


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

poucas frases

Vaidade significa qualidade do que é vão.

As nossas suposições só servem a nós mesmos.

Costumo me dobrar ao que quero.

A mínima grosseria ainda me deprime.

Ansiedade nunca foi meio de locomoção.

Precisar de alguém, para mim, é motivo de orgulho.

Um "não" não me basta.

Os sensíveis costumam ser inteligentes.

A nossa natureza é o que nos obriga.

As pessoas que dão a outra face,
dão-a em benefício próprio.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

domingo, 30 de novembro de 2008

(in)delicadeza

O Girassol - Gustav Klimt

Quando eu era criança, gostava muito de uma espécie de planta que reagia ao toque indelicado fechando bruscamente suas pequeninas folhas. Me impressionava a tão singela defesa de quem precisa implorar, ao perigo, sensibilidade. Era tudo o que ela podia fazer e não era pouco. Na minha imaturidade infantil, divertia-me tocando rapidamente todos os seus galhos. Ela era tristeza e resignação, sentindo-se culpada pela minha ignorância de menina. Aos poucos, o seu incansável ato simples me deu a educação. Eu só aprendi porque a natureza tem a sabedoria de se fazer observar.
É difícil acreditar, mas o romantismo acabou há séculos. Os românticos, que fizeram esta descoberta na casa dos 20, apaixonados, morreram de tuberculose. Já eu, que venho sobrevivendo aos 27, tomo a minha cota diária de vitamina C para não morrer de overdose.
eu sei a medida do tempo, mas não o quanto ela me significa.
me acho sempre querendo o que é velho ou jovem demais para mim.

sábado, 29 de novembro de 2008

onde ficarão as nossas culpas?

Mulher banhando-se num Corrégo - Rembrandt
Os últimos experimentos garantem que, em 2010,
mulheres já poderão ser fabricadas sem a costela de Adão.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Então, é preto e branco.
Sou eu quem enxerga colorido.
Eu saio sem corpo. Não presto atenção. Quase sufoco.
Sou velha. Velha demais para a espera.
É sempre a próxima pílula, o próximo copo, o próximo beijo.

Subliminar

Quando preciso inspirar vida, olho os outros.
Todos vivem. Todos são. Todos entre regras e valores.
O "e" humano entre todas as coisas.
O universo e o senso comum. Eu e o meu.
São espelhos, minhas e não, imagens.
Em algum lugar, uma chama involuntária como respiração.
Somos as mesmas coisas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

mar contemporâneo


A minha cidade tem mar. Uma faixa imensa de areia temperada com espuma e sal, que já recebeu um pouco de tudo que se tem notícia. Tanto a morte como a vida chegam, na minha cidade, navegando. Pelo mar, a viagem é sempre mais bonita. O mar da minha cidade coloca o céu mais próximo dos homens, enche de azul o invisível. É o mar que fragiliza os prédios, enguiça a tecnologia, engordura as janelas da minha cidade. Não há o que fazer. Eu preciso tanto dele, que esqueço.

Com tanto mar, na minha cidade, ainda chove. Tanto chove como faz sol. O tempo que parece necessário. A gente, que bem nasceu nela, nem sempre observa e ainda se surpreende com esta natureza que já não nos é contemporânea. Agradeço por ter o balanço do mar em meus quadris.
Quem nasce numa cidade de mar intenso, sem perceber, apreende um pouco de vida com a maresia.

O mar é exemplo. É ele também a chuva. É ele também o sol. Na minha cidade, quando chove um pouquinho mais, alaga tudo. É água. É água fora e dentro da pele. Nos dias de maior sol, é no mar que eu penso e, nestes dias, ele brilha mais e muda de cor. Na minha cidade, quando faz frio, eu tenho medo e rezo. Rezo para este mar que me acompanha.

Triste da cidade que não tem mar. Mais ainda das que, desta falta, construíram prédios. Quase não tem azul. É mais a poeira e o concreto apequenando o céu. Chove pouco e, às vezes, nem tem sol. É só frio ou calor. Para mim, é tristeza, solidão e saudade. Se lá vivesse muito tempo, não esqueceria.
Já eles, que lá nasceram, talvez nem saibam. E, por isto, não sintam falta de um mar para rezar. Cada um sabe a cidade que carrega dentro de si.

sábado, 22 de novembro de 2008

hoje, não vou acender as luzes.

Era só boca dizendo adeus.
O corpo todo trêmulo.
Vais?
Não tenho para ti uma palavra de revolta.
Não tenho palavra.
Atravessando o corredor pensando na vida, dou de cara com uma porta. Com naturalidade impensada, abro-a sem bater. Espantado, lá de dentro, o mundo dá um chilique:
- Ai, que susto!
Eu, sem conter o riso:
- Com licença...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Transviada

Nos últimos dias, fiquei em casa. Fazia tempo que isto não acontecia. Eu gosto porque a minha casa ainda é um dos poucos lugares silenciosos que conheço. Fico sozinha com meu cachorro, não sei se preguiçoso ou se covarde, deitado em algum canto. A despeito do ar que, na casa de nossos pais, sempre tem que circular, não abro as janelas e quase nada, as persianas. Mais silêncio. Se não fosse o relógio ou as luzes invasivas acendendo lá fora, acho que o dia não passaria. Não me lembraria de acender o abajur e, sem notar, aproveitaria a luz do computador para iluminar toda a casa. Gosto do escuro também.

Algo estranho neste fim de sexta-feira de manhã chuvosa e impaciente. Estou mais sozinha e pela fresta da janela do meu quarto, que aceitei abrir para não sufocar com o incenso, um vento frio, um cheiro de asfalto e concreto ainda por secar. Chuva na cidade. Chuva na cidade se tem poesia, é pouca, bem pouquinha. Alegria, nem se fala. Não conheço ninguém na cidade que comemore a chuva, no máximo, um "tinha que chover, estava muito quente" ou para os indispostos "é bom para dormir". Ninguém dançando, pisando nas poças, divertindo-se com a água que cai. Então, dou-me conta: é sexta-feira à noite e nem chove mais.

Há horas preenchendo o silêncio com um cd em espanhol cênico e eloqüente, inusitadamente, me veio uma vontade enorme de cometer um erro. Um erro não, algo mais. Um delito social. Algo que fosse reprovável para os moralistas e pelos liberais. Um ato, muito bem pensado, que me renderia de uma vez por todas um olhar de reprovação cruel e impiedoso de todos e de qualquer um. Imagine a sociedade inteira me apontando o crime e o castigo. Sim, eu teria feito algo que finalmente daria, a todos, o direito inquestionável de uma sentença pelo não-perdão. Todos seriam sensatos e, ao mesmo tempo, unânimes, em afirmar que o meu castigo era merecido. O assunto, como nestes casos é de costume, renderia em alto e bom som pelas ruas; abertamente - como nunca fui contemplada, por inúmeras sextas-feiras adentro.

Ávidos pelo próximo capítulo, enfim, entregariam o meu castigo. Eu cumpriria todo o penar e, pelos anos necessários, suportaria com resignação os incansáveis olhares de repúdio e indignação. Durante o meu martírio, haveria ainda o meu próprio tempo de reconhecer, envergonhar-me, culpar-me, arrepender-me e flagelar-me até chegar o dia, que não sei se é possível existir com toda esta diferença de idades entre as almas humanas, em que finalmente passaria.

Por fim, haveria, pelo menos, um dia depois deste. Um dia silencioso como esta sexta-feira, no qual todos os vivos que, sem nenhuma mísera exceção, me condenaram em nome da justiça, teriam salvado as suas e muitas almas do inferno pelo valoroso exemplo de honestidade e incorrupção. Neste mesmo dia, do outro lado, eu acordaria em paz.


"No abrir dos olhos, ainda como num sonho,

ela levantou da cama e, aos pés do seu pecado, disse:

- Graças, meu amor, graças!"

Abandono

De repende, um suspiro.
E eu que nem tinha percebido que estava triste...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Gustav klimt
"A menina dos meus sonhos dorme para não crescer"

Diálogo VI # Sem silêncio

- Quando eu estava vindo para cá, vi a Clara, chamei: Clara! Mas foi meio tarde, bem na hora ela atravessou a rua.
- Ela não ouviu?
- (apertou os lábios, antes de responder) Eu sei, o senhor acha que eu não devo mais falar dela.
- (ouve sem olhar)
- Eu quero, doutor. É o meu azar.
- Não há problema nenhum, desde que você consiga ficar bem assim.
- Ela estava com um vestido curto, reparei porque ela não usa muito. Acho até que engordou um pouco também...
Às vezes, eu penso que ela mudou de cidade. Sei lá, está em outro país.

(pausa)

Quando eu a vejo, doutor, faz um silêncio.

(Sozinho)

Há o silêncio que desperta com o seu sorriso.
Ensurdece. Nuveia o chão.
Preciso dele. Hoje de manhã, precisei mais.
Veio outro, tão... tanto... ainda.

importâncias

- Uma das melhores lembranças que eu tenho da gente, é um dia que a gente veio até aqui tomando chuva.
- Quando?
- Um tempão já. A gente chegou da casa de sua mãe... Acho, não tenho certeza. Saltamos no shopping Barra e viemos até aqui abraçados debaixo de uma chuva, mas chuva mesmo...
- E chegamos muito molhados?
- Encharcados! Foi pau d'água, do shopping Barra até aqui com chuva na cabeça. Só que a gente não estava nem aí. Você não lembra, não é!?
- Não.
- Eu intitularia uma das cinco melhores lembranças da gente. Você não lembra!?
- Nossa!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

o fazer nosso de cada dia

Parece-me, agora, que as únicas revoluções possíveis são as pessoais. Só elas podem nos trazer alguma diferença.

Intransitivo


A verdade é que, para mim, todas as coisas falam de amor

música silêncio telefone teatro cama sim fotografia
e-mail céu livros sonhos mp3 sapatos filmes poemas
travesseiro colo quadros cartas blogs mar violão doces
ursos de pelúcia incensos vento batom pássaros chuva
passeios casas antigas e novas flores praças
infância piano chocolate chão perfume ferro de passar
internet neve barco lixeiras domingo filosofia
nuvem não saudade cores cadernos
pronomes
(...)

"Corra Lola, corra!"

- Tem sempre um pé atrás seguindo o passo à frente.

"(...)Venha, meu amigo Deixe esse regaço Brinque com meu fogo Venha se queimar Faça como eu digo Faça como eu faço Aja duas vezes antes de pensar Corro atrás do tempo Vim de não sei onde Devagar é que não se vai longe Eu semeio o vento Na minha cidade Vou pra rua e bebo a tempestade"

Bom Conselho - Chico Buarque

sábado, 15 de novembro de 2008

Não tire de mim as minhas presilhas,
aprendi a usá-las para arrumar o cabelo.

As três idades da mulher - Gustav Klimt

Sexo: (x) F ( ) M

A mulher tem sempre olho de dona.
Vigia tudo, o que é seu e o que nunca lhe foi confiado.
É a pulseira, o pulso, o impulso.
Um olho em si, um olho no ciúme.
Levanta as saias, defende as crias, arruma os cachos.
É da mulher: o guardar, o cuidar, o perder, o chorar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

quase em branco

O dia soprou baixinho nos meus ouvidos:
- Acorda!
(abri os olhos)
E então, soprou de novo:
- Sorri.
(teto branco, lençol azul, som de cama)

O tempo antes do sol

Vai e não amanhece:
apenas à noite se pode dominar o tempo.
Deita e, de olhos fechados, vigia o sol.
Sempre no teu descuido, ele desperta a todos.
Viver é sonhar.
A gente morre, sempre inesperadamente, quando desperta.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

eu e o significar

As coisas só ficam claras quando falecem.

lembranças ao meu

"A vaidade, embora não destrua totalmente as virtudes, desordena-as todas."
François de La Rochefoucauld

"Agradar a si mesmo é orgulho; aos demais, vaidade."
Paul Valéry

"A vaidade é um princípio de corrupção."
Machado de Assis

"A vaidade quer aplauso."
Massimo D'Azeglio

"Há pessoas cuja vaidade interfere em tudo quanto fazem, mesmo nas leituras."
Pierre Marivaux

domingo, 9 de novembro de 2008

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

me deixo, me esqueço, me perco
mania de organização
roda e vira, me pego fora do lugar...
E o tanto que castigo esta menina!

(a gente aprende quando?)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Nós e o caminho do meio

Deus está acima de todas as coisas.
O Diabo, abaixo de todas elas.

o que se diz, o que se pensa, o que se sente

Acordei no meio da noite e lembrei algumas imagens do meu sonho. Tenho sonhado com pessoas que vejo pouco ou cada vez menos. Nos sonhos, elas me chamam a atenção. Aparecem e somem como na vida real. Me fazem pensar que estou, cada vez mais, ficando de fora das verdades. Vou me deixando vulnerável em tudo que faço, aprendendo, aos poucos, a diferença entre o certo e o sincero. Enfim, sensibilidade não é mesmo segredo, nem certeza para ninguém.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Sal & Chuva

Eu, bem mulherzinha, descanso deitada em teu colo.
Me recebes e cuida.
Podes sim, de mim, quase tudo que queiras muito.
Nasci para o também e assim me faço agora,
com muito gosto.

azedinho-doce

novembro vem,
amanheçendo com ares especiais.
em meio à primavera, ainda espero.
estou mesmo no tempo de receber flores.
A fuga também é apego: deixe que venha e que passe.

domingo, 2 de novembro de 2008

"Ele só quer, só pensa em adaptar.
Na profissão, seu dever é adaptar."
Raul Seixas
O Terapeuta - René Magritte

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

meninas crescem mais rápido

Mark Ryden
Na cabeça, o laço vermelho.
Acima dela, o coração, entre os deuses
ora de direita, ora de esquerda.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Hoje, o tempo passou e não tive medo.
Não esperei este, nem o outro.
Há que se dá um minuto de atenção ao minuto que passa.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quando você não relaciona o teatro a sua verdade, você o relaciona a quê?

"Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo,
tende piedade de nós"

Então, por que a morte do ator ainda é cênica?

Eu acredito no teatro da motivação, imaginação e fé. É o que eu acredito, o que eu desejo e o que eu busco para mim. Tratando com destreza estes três elementos, não tenho dúvidas de que um ator possa se comunicar com a platéia em qualquer lugar do mundo, em qualquer linguagem e/ou expressão teatral, se por ventura quiserem classificar.

O teatro é convenção. Não há teatro sem imaginação e fé e, por essência, a motivação, servindo estas duas coisas. Estes dois elementos precisam existir tanto no palco, quanto na platéia para que um espetáculo aconteça. O ator imagina e acredita. A platéia imagina e acredita. O espetáculo é sempre a junção da imaginação e crença do ator e da platéia. Tudo que um ator faz em cena só existe para suscitar a imaginação e a fé, dele, dos demais atores em cena e do público na platéia. A imaginação e a fé constroem a emoção. É com emoção que se preenche um espetáculo de teatro. É desta forma que o teatro ascende a categoria de arte.

Quem não acreditar nisto, que faça os outros tipos, que siga outros caminhos. Eu, por enquanto, quero mesmo desconhecê-los. Não tenho a pretensão do teatro mundial, tenho a pretensão do meu teatro. Do que gosto de assistir, do que eu gosto de fazer. No entanto, é bom que existam os outros, favorece o diálogo, a discussão intelectual. E o melhor: o diálogo teórico não requer uma produção concreta. Assim, qualquer artista, inclusive eu, pode dizer o que pensa e fazer apenas o que quer. Caso não, pelo menos, ainda resta a qualquer artista, inclusive a mim, a opção do não fazer. O que não existe é artista refém da arte: se não se tem liberdade de criação, não se é artista. Se não se é artista, não se faz arte. A arte não aprisiona ninguém, liberta.

Tudo isto por que quando eu vou ao teatro eu quero, pelo menos, duas coisas:
  1. O direito de poder imaginar: estou farta de vê as coisas como elas são, quero vislumbrá-las.
  2. Profissionais que vendam as suas emoções e não o seu corpo: o corpo do ator é veículo de sua arte e não produto.

PS: Um dia com calma, tempo e mais jeito, voltarei a esta digressão.

Ao artista e ao público

Quem se empresta à arte, recebe-se em dobro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

desassossego

Procurei os meus escritos inacabados. Parar perturba.
Será mesmo preciso ser dono?
De tudo que tenho, sou eu mesmo o excesso e a falta.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

pequeno aparte

"tem tanta gente quanto conhecimento"

batendo as botas

- Quero terminar.
- O quê?
- Nossa amizade.
- Não entendi. Amizade é coisa que não termina.
- Tem certeza?
- Nós não brigamos.
- Não precisa.
- Precisa. Ou então, é o tempo.
- O tempo?
- É. Ou a falta de tempo.
- Piada.
- Mas por que isso?
- Não gosto de ver as coisas se acabando.
- Pois, eu odeio final.
- É tudo ciclo: começo, meio, fim.
- E quando sabe que está no fim?
- Quando começa a diminuir o valor.
- Perdemos o valor?
- Se não terminarmos aqui, perderemos em breve.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Epifania: uma bela manhã de 91

Eu e a minha irmã aprendemos algumas músicas juntas. Ficávamos repetindo as letras um bom tempo até memorizar. Lembro-me que foi assim, em diferentes momentos das nossas vidas, com Os barcos, Tarde em Itapuã e Aquarela, que achamos despretensiosamente nas páginas de um livro de desenho. Ficamos horas nos divertindo e cantarolando a música. O nosso dueto infantil de Aquarela teve uma inesperada carreira: um dia, a professora resolveu fazer um trabalho e o som não funcionou, fui chamar a minha irmã na sala dela e nós duas cantamos juntas para algumas turmas da 4ª série. Eu tinha 10; ela ia fazer 13 e estava na 6ª.

(...)

"E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faco chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá"

Aquarela

O que nos lembra

Reconhecemos na literatura, no teatro, no cinema. Atribuímos à arte, os momentos de epifania. Um fato, um acontecimento, que interrompe a rotina e revela um estado, onde os argumentos não importam, por mais que façam sentido. Nenhum aviso, nenhuma recomendação, é ela, a própria vida, afirmando-se inesperada. Há algo desesperador no presente irremediável, aquele que bem ou mal, não passa. Eterniza-se na história, compõe o passado, orienta o futuro. Então, é assim comigo e com qualquer um, de quando em quando, desde a infância. São as tragédias e as glórias, que repentinamente acontecem e nos despertam.

"Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar"


Copo Vazio - Gilberto Gil

domingo, 12 de outubro de 2008







O amor derreteu-se, deixando a água por secar.


alguém canta para mim?
preciso de música não eletrônica
estou surda
atrapalhando a pista

...

não ouvi ruído
não senti dor
o gosto só chegou no fim
quando eu já não podia impedi-lo.

decerto

sinto não questiono
deixo você ser a sua forma
não cabe a mim os planos
deixo ser sem qualificação
não são duas nem mil
as faces do vir


"Há de chegar com uma cara, uma roupa e uma palavra na boca."

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ato de refazer

Trabalho derrubando muros. É duro, mas esta ainda é a parte mais fácil. Difícil mesmo é, depois de destruir, reconstruir.

Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/Destruir/Reconstruir/
(...)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

domingo, 5 de outubro de 2008

Foi também amor II

O amor tem passado.
Cabem, a ele, todos os pretéritos:
o perfeito, o imperfeito e o mais-que-perfeito.

Tenho para ti um "sejas feliz"

Inconsequente. O presente acontece, sem muito pensar. Vai carregando as paixões, mudando os motivos. Há tempo, eu só rio, desistindo de levar o futuro a sério. Acho mesmo que, de sorriso em sorriso, o mundo vai melhor.

Onde há bom tempo

Como ir além, se os meus sonhos já vão tão longe?
Sonhar adormece.

sábado, 4 de outubro de 2008

estado

A vida está para o sempre,
como a morte está para o nunca mais.
Há quanto tempo, de nós, está o eterno?
Antes do princípio e do fim, muito do não lembrar.
No eterno, descansa o morto.

Foi também amor

Ao amor, não cabe a eternidade.
Dele, pode-se ter apenas uma felicidade simples.

E, quando assim não for, já foi.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

nada a fazer


































(todos os poemas já foram escritos.)

"É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra. Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós."

Miguel Torga

domingo, 28 de setembro de 2008

desenho do meu

Dos seus olhos corre devagar
mais um pingo faz a curva

a tristeza é dela
ninguém pode carregar

não adianta pedir barulho
o silêncio ensurdece
há de despertar a chuva


É chuva, é chuva

fecha rápido as janelas
não deixa o vento mudar
pela porta já não se passa
ninguém entra, ninguém sai.

Na tarde de céu cinza
não cabe ao tempo,
nem ao acaso.
Ninguém pode desenhar o sorriso dela.

sábado, 27 de setembro de 2008

sou no plural

Sem ver
mais vontade que saudade
me traz em qualquer pedaço um pouco de volta.
Nunca vi felicidade sem encontro
o chão não é caminho para os nossos motivos.
Só posso ouvir o amor
toda a certeza e nenhuma razão.
Escuto teu cantar sincero
Sorrio e sorrio de novo.


O amor me leva em teus braços
elevada feito criança
ainda com esperança de crescer e multiplicá-lo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

olhos boca braços pele
faça-se em mim
suor

uma mulher comum

esconde de mim os seus sussurros,
só me dizem verdades.
e eu queria tanto que você soubesse mentir,
pelo menos, eu estaria livre.
chama-me ao longe sua presença.
ainda me rouba.

não quero mais esta beleza de todas as cores.
que a natureza cresça fora de mim
e o verde do meu corpo seque à luz do convencional.
eu quero mesmo ser a velha conhecida,
andando para o futuro entre o feliz e o tanto faz.

- garçom, para mim o de sempre, com gelo e limão.

ao fim

falemos do velho
o velho não está morto, nem inerte
é o que sempre esteve a nos rondar se repetindo
é, em si, a possibilidade latente de mudança
é no velho que se dá, afinal, o que sempre esteve para acontecer

ou és novo, ou ainda és velho.
ou, então, já estás morto.

bordado bordô

que sempre existam flores, moços, flores, moças

menina bonita bordada de flor
eu vi primeiro
todo encanto dessa moça

todo encanto dessa moça

vai ver era só
dizer a ela assim
moça por favor
cuida bem de mim

(Marcelo Camelo)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Primaveras

Eu nunca pensei que gente jovem sentisse tanta saudade. Quando comecei a sentir muita saudade, achei mesmo que estava ficando velha. Depois, fiquei surpresa quando descobri um monte de gente fazendo 20 e morrendo de saudades do pouquinho que viveu. Contemporaneidade. O novo envelhecendo antes do tempo passar. Antigamente, aos trinta, já se estava mesmo velho. No entanto, há algum tempo, estamos durando mais. O fato é que, até agora, ninguém ajustou a conta e os novos anos de vida só alongaram a nossa velhice.

domingo, 21 de setembro de 2008

Às vezes, tenho preguiça de conhecer gente nova. Novos amigos, então, nem se fala. São tantos nãos para atravessar. Desvendar cansa e, para mim, disfarçar cansa mais ainda. Decidi: de agora em diante, só quero conhecer gente fácil, oferecida e sem-vergonha. Chega de gente que não tira a roupa nem para fazer sexo!
Eu não seco as minhas lágrimas. Quem as seca é o tempo.
O tempo resolve tudo, desde a ansiedade dos jovens até a própria juventude.

sábado, 20 de setembro de 2008

O rei é mais bonito nu

Hei de amar como o sol,
que se levanta todos os dias por outrém.
O sol, quando lhe fecham os olhos,
fica ainda mais intenso,
por traz da pele, invade as pálpebras,
com seu laranja-vermelho incandescente.

Ele dispensa a vaidade.
Dono do desejo,
só por este,
amanhece a noite e anoitece o dia.


"Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
o rei é mais bonito nu"
Moça à janela - Salvador Dalí
Saudades de ti, andorinha.
Saudades do teu verão.
Perdeu-se do céu, andorinha,
azul-cor-ilusão.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Meio caminho andado

Passaram-se seis anos da nossa nova infância. É bonito de se vê: a minha e a sua criança chegando de mãos dadas à primeira metade do caminho.

"Quando eu for velho
Quando eu for velhinho
Bem velhinho
Como seremos
Como serei
Como será?"
(Caetano)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ata-me

Palavras tudo dizem e nada realizam.
Que necessidade delas?
Não as use para me aprisionar.
Envolva-me com os teus braços.
Juntei palavras para formar-te. és livre. não coubeste em nenhuma delas.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Flores ao vento

Estou à procura da ponte,
já não posso carregar por trás dos olhos,
a minha saudade.

Dizem que por baixo da ponte passa um rio,

onde posso dissolver o meu sal em outras águas.

Quanta água doce, tanta água salgada,
navego sem desacordo,
por não saber trazer aos olhos o salobro despertar.

Voa pássaro assobiador, traz um girassol para mim.
Quando encontrar um girassol pelo caminho,
regue-o, ainda que rapidamente.
Sem cuidado, a sua cor não resistirá ao anoitecer.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

... por nada

Meu leme-coração,
Guardo o meu romantismo para admirar os seus desejos com sabores juvenis; mas, enfim, ao não, coube também o sim.

Então, andei demais por terras vizinhas. Chego a me arrepender do cansaço. Recolho-me em despedida.
Que a vontade me permita repousar nas águas calmas do meu rio. Sempre hei de retorná-las entre os horizontes que navego.

"Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor"

A ostra e o vento

Vai a onda
Vem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento

Vento

Nem um barco
Nem um peixe
Cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento

Vento

Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento

Vento
Vento, vento


(Chico Buarque/1998)

domingo, 14 de setembro de 2008

porque preciso música

Escuta o silêncio. Escuta.
Ele não fala, mas explica.
Os velhos têm medo da morte. Os jovens têm medo da vida.
Só as crianças vivem em paz.

A velha juventude

E a avó contava à menina:

"Ela entregou-se a ponte dourada que cruzava o horizonte, passo a passo, sem se notar. E, ao chegar à outra margem, olhou para cima e sentiu o sol ainda mais intenso. Espantou-se: entre as árvores e debaixo do calor daqueles raios, entreabertos estavam os olhos de um velho. Quando então quis aproximar-se do senhor para compreendê-lo, um novo e maior espanto: era ele, de fato, um rapaz."

- Minha filha, os olhos envelhecem primeiro. Há de se preservá-los em tempo.

Meio-fim de festa

Duas mulheres conversam exaltadamente. Um homem, no meio, parece não existir. Todos têm pouco mais de trinta:
- 21.
- 21? 21 anos não sabe nada, o que vale é a energia!

(Gargalhadas geral)

***

É, Nelson, a vida é como ela é...

sábado, 13 de setembro de 2008

Pecado capital

Quando se escolhe sabor morango, perde-se o chocolate.
O mal humano é a gula.

Diálogo V # Cuidado

- Não ligou, hein?
- Ah, não se passaram tantos dias assim.
- O suficiente para eu ligar.
- Você sempre foi muito ansioso.
- Está muito ocupada estes dias?
- Normal.
- Então, vem amanhã à noite. Wally quer te conhecer, já mostrei uma foto sua para ele.
- Eu não sei se...
- Tem outro compromisso? Pode ser mais tarde, se você quiser.
- ...
- Que foi, Clara? Não quer vir?
- Nosso último encontro foi tão estranho.
- Era diferente. Você sabe. Faz tanto tempo já.
- Um mês e meio. Não sei se as coisas mudaram tanto assim.

(pausa)

- Vocês têm se falado?
- Pouco.
- Clara, eu não entendo. Você dizia...aliás, deixa para lá.
- Diga.
- Não importa.
- Diz.
- Estou sofrendo, Clara, eu te espero há muito tempo.

(silêncio)

- Você vem?
- Vou.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Mark Ryden

Velada e nua num degrau, acima ou abaixo, do mal.

Não parece óbvio

O Beijo - Gustav KlimtProcura com os olhos fechados e expectativa no respirar.
Presente ou não, gela as minhas mãos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Eu te vejo. Cada vez mais saudade. O que não há?
Entre nós, o desejo. Uma tensão nos separa, mantém à espera de nada ou de qualquer coisa que desfaça a incomunicabilidade do silêncio e das palavras. Incapazes do encontro. Somos, ao longe, um passar quase alheio a nossa vontade. Se pudesse, daria-lhe o meu toque; mas, em todo tempo, eu só o acompanho e, sob o seu olhar, continuo estanque.

“Você vive na estrela
incomunicável. ”

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu...
Se o seu mundo fosse um quadro branco e você, aos poucos, pudesse ir desenhando nele os seus desejos? Você, com toda a sua sinceridade e cuidado, preenchendo o seu mundo apenas com o seu querer. Um mundo seu, em todos os lados, cantos e curvas, feito inteiramente do que lhe faz diferença e sentido.

(...)

Um mundo de desejos sufoca tanto quanto a cela branca de um hospício. Dentro dele, viveria surda de um lado a outro, em vão, debatendo-me. Em toda parte, seriam gritos: eles, os meus próprios desejos, a me enlouquecer.

domingo, 7 de setembro de 2008

Na caixa de cartas: uma correspondência simples

E o querer? Há de se respeitar. Queria que não fizesse de tudo mais forte. O que for, é mais simples deixar que seja. Tenho muito para dizer-lhe, mas não posso dar-lhe as minhas palavras. Preciso ouvi-las de você. Tem tantos medos. É estranho que não tenha medo de perdê-las. O que há de mais valioso? O que merece o sacrifício da beleza?

O belo não precisa de máscaras para existir, pode ele ser o motivo de tudo e valer a pena. Se faz o que acho, sofre o não por medo de sofrer o sim. Não entendo como: isto realmente lhe faz sentido?
Eu menti hoje, ontem, anteontem, na quinta, na quarta, na terça e na segunda. Também menti na semana passada e na retrasada. No mês passado, no ano passado. Aliás, eu sempre menti. Desde muito nova, minto tanto e tão bem que chego a acreditar.

O que eu queria mesmo era mentir em paz. Só que - faz tempo - inventei que não sabia mentir. Desde lá, esta verdade me persegue.
O corpo é a única coisa viva.
Tudo que não é corpo é a morte mandando recado.

E, aos céus, ela implorava:

"Então, por Deus, vem ou deixa-me ir.
Ou não percebes os meus sentidos?
Não posso pedir-te uma vez mais.
"

Ao meu redor, uma redoma de vidro.
Eu, de dentro, não a vejo.
Você, de fora, não a toca.
Nem a ignorância, nem o medo nos tornarão livres.

sábado, 6 de setembro de 2008

Minhas palavras emudeceram.
Tristes, negam-se a escrever-me.

Diálogo IV # Enfim, sós.

- Clara.
- Você nesta seção?
- Estou criando um cachorro. Peguei na rua semana passada.
- Jura?
- Já até levei ao veterinário. Parece que é filhote ainda, tem uns seis meses mais ou menos.
- E você que não criava nem planta...
- Você também parece diferente.
- Como ele é?
- É branquinho com umas manchas marrom e o olho castanho claro. É até bonito, o vira-lata.
- Tem nome?
- Wally. Chego em casa e pergunto: "Onde está Wally?!". Ele aparece todo feliz. Precisa ver.
- Cachorro é ótimo, fácil de conviver.
- E você, sozinha aqui?
- Em todos os lugares.
- (parado)
- Terminamos.
- Quando?
- Tem umas duas semanas.
- Mas sério mesmo?
- Ele levou tudo lá de casa.
- Então, não foi uma briguinha.
- Não.
- E você?
- Fazendo compras para um, aliás, para uma.
- Assim de repente?
- É. Ele quis.
- E você?
- Quando um não quer, o outro sofre.
- Você? Pouco tempo, acostuma rápido com as coisas.
- (ausente)
- Vai lá em casa conhecer Wally.
- Podemos marcar um dia.
- Vai hoje ou amanhã.
- Marcamos depois.
- Tem falado com ele?
- Não, ele está viajando.
- Está esperando ele voltar?
- (riso triste) Não estou esperando ninguém. (...) Hora de ir ao caixa!
- Então, vou ficar te esperando lá em casa.
- Ok.
- Tchau.