sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Mark Ryden

Velada e nua num degrau, acima ou abaixo, do mal.

Não parece óbvio

O Beijo - Gustav KlimtProcura com os olhos fechados e expectativa no respirar.
Presente ou não, gela as minhas mãos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Eu te vejo. Cada vez mais saudade. O que não há?
Entre nós, o desejo. Uma tensão nos separa, mantém à espera de nada ou de qualquer coisa que desfaça a incomunicabilidade do silêncio e das palavras. Incapazes do encontro. Somos, ao longe, um passar quase alheio a nossa vontade. Se pudesse, daria-lhe o meu toque; mas, em todo tempo, eu só o acompanho e, sob o seu olhar, continuo estanque.

“Você vive na estrela
incomunicável. ”

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu...
Se o seu mundo fosse um quadro branco e você, aos poucos, pudesse ir desenhando nele os seus desejos? Você, com toda a sua sinceridade e cuidado, preenchendo o seu mundo apenas com o seu querer. Um mundo seu, em todos os lados, cantos e curvas, feito inteiramente do que lhe faz diferença e sentido.

(...)

Um mundo de desejos sufoca tanto quanto a cela branca de um hospício. Dentro dele, viveria surda de um lado a outro, em vão, debatendo-me. Em toda parte, seriam gritos: eles, os meus próprios desejos, a me enlouquecer.

domingo, 7 de setembro de 2008

Na caixa de cartas: uma correspondência simples

E o querer? Há de se respeitar. Queria que não fizesse de tudo mais forte. O que for, é mais simples deixar que seja. Tenho muito para dizer-lhe, mas não posso dar-lhe as minhas palavras. Preciso ouvi-las de você. Tem tantos medos. É estranho que não tenha medo de perdê-las. O que há de mais valioso? O que merece o sacrifício da beleza?

O belo não precisa de máscaras para existir, pode ele ser o motivo de tudo e valer a pena. Se faz o que acho, sofre o não por medo de sofrer o sim. Não entendo como: isto realmente lhe faz sentido?
Eu menti hoje, ontem, anteontem, na quinta, na quarta, na terça e na segunda. Também menti na semana passada e na retrasada. No mês passado, no ano passado. Aliás, eu sempre menti. Desde muito nova, minto tanto e tão bem que chego a acreditar.

O que eu queria mesmo era mentir em paz. Só que - faz tempo - inventei que não sabia mentir. Desde lá, esta verdade me persegue.
O corpo é a única coisa viva.
Tudo que não é corpo é a morte mandando recado.

E, aos céus, ela implorava:

"Então, por Deus, vem ou deixa-me ir.
Ou não percebes os meus sentidos?
Não posso pedir-te uma vez mais.
"

Ao meu redor, uma redoma de vidro.
Eu, de dentro, não a vejo.
Você, de fora, não a toca.
Nem a ignorância, nem o medo nos tornarão livres.

sábado, 6 de setembro de 2008

Minhas palavras emudeceram.
Tristes, negam-se a escrever-me.

Diálogo IV # Enfim, sós.

- Clara.
- Você nesta seção?
- Estou criando um cachorro. Peguei na rua semana passada.
- Jura?
- Já até levei ao veterinário. Parece que é filhote ainda, tem uns seis meses mais ou menos.
- E você que não criava nem planta...
- Você também parece diferente.
- Como ele é?
- É branquinho com umas manchas marrom e o olho castanho claro. É até bonito, o vira-lata.
- Tem nome?
- Wally. Chego em casa e pergunto: "Onde está Wally?!". Ele aparece todo feliz. Precisa ver.
- Cachorro é ótimo, fácil de conviver.
- E você, sozinha aqui?
- Em todos os lugares.
- (parado)
- Terminamos.
- Quando?
- Tem umas duas semanas.
- Mas sério mesmo?
- Ele levou tudo lá de casa.
- Então, não foi uma briguinha.
- Não.
- E você?
- Fazendo compras para um, aliás, para uma.
- Assim de repente?
- É. Ele quis.
- E você?
- Quando um não quer, o outro sofre.
- Você? Pouco tempo, acostuma rápido com as coisas.
- (ausente)
- Vai lá em casa conhecer Wally.
- Podemos marcar um dia.
- Vai hoje ou amanhã.
- Marcamos depois.
- Tem falado com ele?
- Não, ele está viajando.
- Está esperando ele voltar?
- (riso triste) Não estou esperando ninguém. (...) Hora de ir ao caixa!
- Então, vou ficar te esperando lá em casa.
- Ok.
- Tchau.

Repartida

És borboleta. Voa.
Quero perdeste de vista.

Amarela-verde

Eu quis demais.
Resta-me uma noite inteira,
sem as lágrimas da compreensão.
Triste. Espero não mais.

"Aceita o não, menina-flor."

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Oração

A sua solidão não me basta, não consigo me sentir só.
Tenho muito remorso e quase nenhuma culpa.
Não se perca de mim.
Já não demorarei tanto.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sim, obrigada!

Eu não tenho culpa de acordar todos os dias para conviver a vida que me cabe e ainda desejá-la. Há muito desaprendi a ser difícil e me entrego, disposta e bem humorada, ao que o tempo me reserva. Para a maioria das pessoas que conheço, a felicidade, aparentemente tão abstrata, é oferecida feito brigadeiro na bandeja e, ao invés de simplesmente prová-la, elas apenas resistem com um "Não, obrigada". Eu lamento, não compreendo tamanha cerimônia. Para mim, a infelicidade nem existe e o culto a sua falsa existência me ofende.