segunda-feira, 25 de abril de 2011

ex-sonhos

vendo o navio carregado de ex-sonhos
pensou: ainda não pode ser desse jeito.

(indo)

assim não é modo de deixar levar
não é modo e ainda assim...

(partida)

pelo tempo, não respondia perguntas
pelo tempo, não fazia perguntas
pelo tempo, doía mansa com seus pedaços

quinta-feira, 24 de março de 2011

medo de mentira

basta um duvidar para ser mentira.
basta tempo para ser verdade.
não é segredo.
a despeito da vontade, à lembrança da morte, eu sei:
vai demorar para eu descansar.
não é culpa, nem outra fé,
nem tão pouco só o meu fazendo sombra.
a vida dá de sobra.

domingo, 13 de março de 2011

maternidades

Agora há pouco, depois de abraçar Albert, fui até a cozinha encher mais uma vez a caneca. Enquanto se espreguiçava para deitar novamente, ele perguntou:

- Mãe, o que é carinho?
- É café com creme de leite, meu filho.
- Você nunca me deu...
- É porque você é um cachorrinho e isso faz mal para os seus dentes.
- Mãe, eu sou um cachorro velho, quase não tenho dentes.
- Mas eu te amo como se você fosse um nenenzinho.
- É, aquele seu amigo que faz cuscuz tem razão, só as mães são felizes.


Para Lucas Duarte (com creme de leite).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Com um sorriso...

Porque ela me sobrou a idéia e, certa vez, ouvi, como tuas, estas palavras:

"Às vezes, a melhor política é ir à praia."

Uma leveza apenas para abrir o intenso verão que há de vir.


Com um sorriso para Lara Couto.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

mistério


de que nome te chamo, não sei.
já não o sabia quando, em tantos espectros, escapou-me viva alma por alguma fresta, abandonando o meu corpo à gravidade.

inconsciência. 
enquanto a alma atravessava abismos; o corpo jazia, cumprindo pequena morte até acordar sonâmbulo. lapso de procura.
horas depois, eram novamente um.

consciência. 
lembrei-me da experiência após o reencontro corpo-alma. submeti, a todo tipo de razão, aquele pedaço de vida.
horas depois, ainda não pude compreender.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

sweet jardim





a gente soube e soube muito bem e por longo tempo. mas teve uns dias - talvez fossem poucos ou até nada, se a gente soubesse - que sem saber, a gente morria de ignorância. foi assim.

morta fiquei até descobri que a ignorância apenas desfalece. foi o vento na plaquinha de madeira que vi plantada no jardim. no balanço, eu li: "basta aprender para tornar a viver de novo".

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

amor





"química que se revela até quando de ti vejo apenas a sombra. verbo. de onde vem, esconde de nós teu corpo o segredo. não se dá, nem finda. transpõe a borda. vivo para te ver arar inconsciente este belo que coube a ti do universo Deus, homem."





quinta-feira, 22 de julho de 2010

conto de passarinho


mais que dia e meio, passarinho esperou no batente da janela a sua hora de voar. faz tempo, deixei-lhe gaiola aberta, mas era ao redor dela e nos ares da minha que experimentava seus passeios. noite de segunda, o primeiro olhar. fiquei de pé, do lado da cama, vendo-o ir em direção a janela. faz tempo... era de se esperar. minha janela nunca teve boa vista, mas ele empoleirou no batente para ver o céu não sei em qual cor. noite depois ainda estava lá e uma lágrima tardia escorreu no meu rosto. ele hesitou. aí, então, tudo se passou em poucos minutos. sentei na cama, de costas para a janela. antes de chegar o meu tempo de olhar para trás, avistei uma pequena pena voando, quarto à dentro, em seu lugar. Peguei-a no ar e a prendi por entre a grade de cima da gaiola. e, com essa, saí falando: até domingo, arranjo um fim para ti.


domingo, 11 de julho de 2010

sonho, delírio e contradição



na natureza, primeiro, cria-se asas. depois, aprende-se a voar.
e, assim, a natureza nos faz saber que, primeiro, aprende-se a voar. depois, cria-se asas.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

daqui


do céu, desabam os nãos.
dos nãos, desabam o céu.

todo círculo tem seu fim.
todo fim tem seu círculo.

paixão, amor
olhos abertos para ver a luz
olhos fechados para ver a escuridão
poucas palavras, dor exata

nada é complicado
nem a vida, nem a morte
desde que alguma fé nos dê
simplicidade para doer.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

um breve

só, a madrugada que não faz silêncio range consigo à janela dos três turnos. evita puro tragos de amor... e o consome em óbvio sair da casca. termino manhã, começo à tarde. nenhum dia finda as histórias. assuntos. os mesmos tempos. uma mão vazia e a outra faca-cega. não quero ver traços da raiz. seguem tranquilas as noites repousadas em macios desenhos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010


a estação da chuva trouxe beija-flores aos arredores da minha janela. há dias, tenho os observado, evitando me encantar. na verdade, eles vêm em direção à sacada da vizinha. logo acima, em sua floreira, constam vistosos girassóis. lembro-me de quando os avistei lá embaixo, do outro lado da rua. somente depois, falando com a vizinha, descobri a verdadeira natureza daquela beleza: "são de plástico!" - enquanto ela me dizia triunfante, eu entristeci. mas, em pleno outono, eles impressionam até os pássaros. dá para rir dos girassóis, dos beija-flores e também da minha pobre floreira, onde pequeninos verdes insistem em brotar, sem chamar de nenhum de nós a atenção. eu compreendo, fazendo meus os outros que vêm à noite. nem na primeira vez demorei a reconhecê-los: são morcegos. estes sim se interessaram por mim. é preciso fechar a janela para mantê-los em distância. mas, um deles bem que acertou a entrada e, agora, vive a fazer - quando quer - daqui abrigo.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ontem, eu achei que esse blog não me levaria a lugar nenhum.


são tantos os pensamentos que me interrompem ao longo dos dias em enxurrada, como essa chuva de inverno e o seu vento forte entrando pela minha janela. às vezes, eu a fecho e fico com meu suor e minha fumaça. às vezes, eu a abro, deixando os respingos virarem poças, que mais tarde enxugo com guardanapos de papel. às vezes, eu apenas deixo uma brecha. e, assim, pequenina, a chuva me acompanha; e, assim, pequenina, eu acompanho ela - quase de longe, quase de perto.


ontem, enquanto passava pela orla da Barra, era como se o céu cinza chovesse sobre o mar revolto. mas não. naquele meio de momento, a chuva era passado e presságio. e eu não a precipitei. silenciosa, apenas ouvia a minha voz dizendo que eu não queria me afastar do mar. senti uma sincera felicidade de estar em minha cidade. fiquei assim, crente de que era aqui, mesmo diante desse mar revolto, que em algum lugar estaria em casa.


o inverno é uma estação. não se acabam as estações. elas se vão sozinhas e, sozinhas, também retornam. eu sei que quando viajo, carrego a minha cidade dentro de mim. não posso fugir desse inverno. desde que ele apareceu, reagi de diferentes formas, mas já tenho aceitado que ele dure o tempo que precisar. talvez eu e outros além de mim necessitem de tamanhas chuvas.


é a sede que nos diz o que fazer. ela grita e também sussurra as horas de partida. mas a gente aprende a admirar o auto-controle e passa um bom tempo raciocinando e engolindo a própria saliva antes de encher o copo. até perder a hora. no atraso, a minha sede vira aflição. lembro: vou morrer. é provável que eu quebre o copo antes mesmo de enche-lo. o copo vazio em cacos no chão não é mais copo e eu choro lembrando do seu corpo. o copo vazio em cacos no chão quase fora água, e já não poderá matar a minha sede.


é bom lembrar que sempre pode piorar. é bom lembrar que há sempre muito a fazer. depois que um copo quebra, pode-se catar os cacos, pode-se cortar os pulsos. pode-se furar um cantinho do corpo para que o remorso sangre. mas por qual canto o remorso escapa? é mesmo pelo pulso que nos escapam todas as dores?


nem as mulheres nascem sabendo sangrar. é apenas com o tempo que o corpo delas descobre. e talvez seja por isso. eu fiquei assim: crente de que é aqui, diante desse mar revolto, que algum lugar, eu posso descobrir.


sábado, 10 de abril de 2010


o silêncio depois da explosão venta radioatividade.
apenas frio. e a sobra leve.
pequeno corpo. sem alma.

sábado, 3 de abril de 2010

ele me disse tudo.


e enquanto eu em lágrimas falava, ele silenciosamente ouvia. até que numa pequena pausa minha, ele em tom grave e triste disse: eu nem sei o que dizer. eu reconheci que era mesmo assim, permanecendo por mais um tempo em minha tristeza. incrível como é difícil e, ao mesmo tempo, muito belo ouvir isso do próprio pai.