segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


Quando aprendi a fazer bolo, ouvi dizer que se deveria bater a massa sempre para o mesmo lado. Alguns doces também, se fossem mexidos em sentidos diferentes, embolariam. Nunca entendi a fragilidade da massa dos doces, incapazes de suportar reviravoltas. É pura atenção. Como os amo, mexo-os observando.

Não é mesmo para entender.
É apenas para ter cuidado.

sonhei com ela, tão frágil. ela tão carne de mim.
ela precisa de cuidado. eu preciso cuidar dela.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Minha cabeça. Eu não vou dormir tão cedo. É cedo. Eu não vou dormir. Eu queria teu aconchego. É cedo. Eu não posso dormir. Meu estômago guarda os meus medos. É cedo. Segredos, ele não pára de sentir. Estou a niná-lo, mas sei. Tão cedo, ele não me deixa dormir.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

barulho do lado de dentro. silêncio do lado de fora.
silêncio do lado de dentro. barulho do lado de fora.
só se ouve a vontade.
Hoje amanheceu chuvendo...

"Diga a Maricotinha que eu mandei dizer que eu vou.
Eu vou."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Se fizer bom tempo amanhã Eu vou Mas se por exemplo chover Não vou Diga a Maricotinha que eu Mandei dizer que eu Não tô Não tô... não vou Se fizer bom tempo amanhã Eu vou Mas se por exemplo chover Não vou Uma chuvinha, redinha, cotinha
Aí... piorou Nem tô... nem vou
Se fizer bom tempo...

Maricotinha - Dorival Caymmi

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

a gente nunca sabe o que, de fato, nos une aos outros. só sabe que tem diferenças. tem os que a gente gosta. tem os que a gente precisa. tem os que a gente carrega. mais, menos, bem; mais, menos, mal.

Teimosia romântica

- Certos desejos são como se deitar sob o céu para ver a última estrela aparecer.

(...)

Nem por um milagre, o olho humano burro o realizará.
Mas, se insiste, vai, minha filha, deita.
Deus ajude que não lhe caia uma estrela na cabeça.
Deus que lhe ajude!

mais uma vez saudade


Se saudade fosse pássaro que, ao invés de assobiar, matasse,
eu bem que não criava não.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Para Bom Princípio e Bom Fim


Ganhei uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes no amigo secreto do último Natal. É a primeira que me chega nesta vida. Veio da Feira de São Joaquim.

Eu também estive lá. E, mal pisei o pé na Feira, fui "pescada" por um vendedor, que correu em minha direção como se de tudo soubesse "Está procurando artigo de barro?”. Antes que eu entendesse, saiu ligeiro na frente me levando. Ri impressionada. Deus é mais, às vezes, os vendedores acertam. “Venha comigo filha de ...". E disse o nome da Santa, que eu logo devolvi em forma de pergunta para me certificar. Em vão. Nem percebi a hora que me perdi do nome.

Na mesma semana, ouvi três vezes que era filha de uma Santa. Deve ser o mistério que não me deixa lembrar do nome, que nem sei se era o mesmo nas três ocasiões. Passei boa parte do ano dizendo que ia procurar um terreiro e, vendo o final de dezembro chegar, parece que ele resolveu me mandar um recado. "Calma que chego", respondi avisando sobre o compromisso o ano que vinha.

Estou na terra da superstição. Deus sabe o que faz e, às vezes, o povo daqui acerta.

Contei, só por contar, a novidade que ganhei de presente a alguém que compreende muito mais os santos e as imagens do que eu. Recebi de lá um desconfiado "eu acho que você vai viajar". Então, pensei, é melhor mesmo apressar os terreiros. Se pelas vistas vem me chegando um barco, bem me parece que, a âncora, eu vou ter de ir buscar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ia sair, mas teve vergonha. Tudo nela parecia obsceno ou feio. Ficou em casa, escondida do repúdio e medo. Deitada esperando a chuva chegar. Ela quer uma desculpa. Ela quer um motivo. Ela quer uma mala nova e sabe que não adianta. Ela se olha distante até a dor passar. Pequena. Tem medo, sempre treme a volta.

Ela vai dançando a sua vida branca até onde o sonho aguentar. Como uma puta ou como uma santa se oferecendo ao que passa. Ela carrega consigo os castigos. Tem uma bolsa cheia de remédios. Lê todas as bulas e não usa. Ousa. Fala de tudo que precisa. Não pode. Não pede. É presa, presa e presa. Ora extravagante, ora só os olhos da louca. Fácil a qualquer bajular.

Rendida, descrente. Ia sair, mas teve vergonha.

Eu amanheci só com meu ciúme.
E ele, tão imprestável, não serviu nem para me fazer companhia.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Eu nunca mais serei aquela.
A gente se encontrou e morreu.
E, em nossas poucas horas de vida, antes do começo, fomos velhos amigos. Dos quais, o mundo nunca mais terá notícias.

só para me repetir


Somos citados em todos os lugares. Não temos nada de singular. Somos o coletivo dos plurais. Ainda e sempre genuínos.

por onde


Onde está o genuíno? Quero conhecê-lo. Quero passar ao lado de alguém que não leu nenhum livro nos últimos anos. Que não viu nenhum filme. Que não comprou um jornal. Que não folheou uma revista. Que não ouviu noticiários. Que não descansou ao som de uma televisão. Quero ouvir alguém que fale sem referenciar outrem. Quero. Quero alguém que tire de si o mundo, sem aspas. Alguém que, enquanto eu falo, fique mesmo prestando atenção no tom da minha voz. E me espante como se fosse um vidente. Evidente. A sabedoria emocional é rara, é como vidência, uma sobrenatural sensibilidade. E eu quero. Alguém que não saiba, não explique e que seja. Alguém que enxergue mais e esqueça, nos meus olhos, o seu reflexo. Alguém que desconheça Narciso. Que não se olhe de frente. Que não olhe para si. Alguém que sinta que os olhos são janelas abertas por onde se observa o que não se sente. Por onde, apenas os de fora podem nos observar. Quero alguém que não queira imagens e formas para si e para os outros, e as tenha como o desenho imaginário de suas sensações. É o que, para mim, parecemos ser. Desenhos imaginados, sem um único traçar. Quero. Quero alguém que tenha desconhecido os teoremas e os use para alcançar as minhas mãos. Alguém que fale quando quiser falar. E respire. E que, pelo menos de vez em quando, embora acredite que este alguém o faça sempre, acompanhe mesmo que com o olhar a minha respiração.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Sabemos todos. Embriaguez é coisa coletiva. Somos os que bebem. Somos os que se servem da bebida. Somos o respirar da fumaça do fogo alheio, o gole que já nascemos a dar.

Somos do lado dos cegos, o olho bom que não enxerga bem.
Somos assim. Não vemos nada e deslocamos por direções o nosso nariz.

imagem genuína semelhança

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele" (João 1:1-3).


O Verbo está antes da ação. É intenção, pensamento interior, objetivo. Verbo é, em si, verdade e toda verdade corresponde ao sujeito. O Verbo está com todos desde o princípio, como meio, como motivo. Desde sempre, fez-se carne. Dele somos imagem e semelhança, se não nos esquecermos disto.