quarta-feira, 25 de março de 2009

2º Ato: quando era criança, não brinquei de matar passarinho...

porque o pássaro veio agora em minha janela me fazer chorar e não me deixar mentir.
tudo que não digo, choro.
já me disseram para não falar de tudo. de mim. demais.

eu não confio em ninguém.

1º Ato: a esperança não sei quando morre.

abandono aqui o resto de esperança que te resta. não as minhas, e sim as tuas pela tua não-morte. a morte de uma das tuas vidas. aquela que a mim pertence. vais morrer conhecendo pouco esta que, ainda que seja a forma mais supérflua de tua existência, lhe fará falta. tua vida em mim, hoje, liberto ao abandono. e, assim, à própria sorte, sei que não poderá respirar. vais morrer sozinha, sem paz.
eu já choro a tua morte.
poucos dias, viverei feliz, sem ti.

terça-feira, 24 de março de 2009

não se pode ter raiva de algo só porque não se tem.
mas admito: às vezes, meu gênio fica bem ruim.

domingo, 22 de março de 2009

amerelo ou ouro

o girassol caiu do 5º andar. projetei-me pela janela para ver o vaso no chão. eu acima, ele abaixo.
senti a grande flor despetalada. amor e angústia, fui buscar. tudo a nós restava. vaso e raiz plantada.

é sempre assim
a qualquer tempo
vão-se as flores.

o homem retorna ao pó. empoeirada lembrança. triste o destino do real que inevitavelmente se torna apenas um vulto sem significado, coberto com lençol ou névoa. é passado. qualquer coisa que não existe. e, eu, que o criei cuidadosamente, livrando-o do esquecimento por repetidas vezes, deixo-o debaixo do branco. sem dor, sem dó. vou beber uma lágrima em homenagem ao pranto que não se dará. falso valor. fora mesmo pouco. um engano sem nenhum quê. como meras palavras nada especial.

quarta-feira, 18 de março de 2009


o que faço da vida?

teatro.

desconhecer

tem coisas que não é para se saber. tantas vezes desconhecimento é bem-estar. há um tom na existência que poupa tudo que não se pode ou simplesmente não se precisa. todo tempo vai a vida se tercendo por trás do entendimento. você, só, anda. o mundo gira.

terça-feira, 17 de março de 2009

esquecendo a segunda-feira

Quando se tem refluxo, a experiência prática lhe faz acreditar que tudo que desce tende mesmo a subir. Assim, para não morrer sufocada em sua própria digestão, quando já à noite, você come tudo o que não pode na quantidade que não deve, o melhor é se esquecer de deitar. Esquecer que é noite e começar a terça-feira com a escura madrugada. Basta desistir do travesseiro para ver a insônia do mal-estar levantar-se do seu lugar na cama e, decepcionada, sair em busca de outra companhia. Nem por isto, você fica bem. Persiste a crença de que a hora é boa para relaxar. Usando o resto da criatividade barata que lhe restou do dia em que, por várias vezes, você se perguntou "Onde foi parar o meu bom senso?", você embarca num banho despretensioso que, com o tempo, vai se tornando menos quente e mais longo. É uma hora da manhã e você:

- lava o cabelo com aquele creme de tratamento ultra-reparador 5 em 1 para cabelos danificados;
- troca o sabonete neutro pelo esfoliante que – há meses – você estava se lixando para o frasco;
- usa um gel de limpeza profunda eficaz para o combate de acne, mesmo sem nenhuma espinha;
- depila as pernas;
- passa todos os cremes hidrantes que duram um semestre inteiro nas mãos econômicas da sua preguiça, incluindo aquele para olheiras, presente da irmãzinha, que você sempre se lembra de usar às duas da manhã.

Passam das duas.

Você seca esperançosamente os cabelos para não molhar o travesseiro. Passa perfume. Senta. Lê. Escreve. Ouve a chuva até o sono chegar. A chuva passa. O sono não vem. Mas, em quatro horas, tanto o estômago quanto a consciência já te permitem esperar deitada. Bem ou mal, às seis e meia, você irá levantar e já será hora de tomar outro banho.

domingo, 15 de março de 2009

eu minúsculo

olha ao redor da tua liberdade,
quantos corpos tu arrastou por ela.

a desmezura do eu ao outro ora mata, ora escraviza.
o eu nem a si liberta.

sétimo dia

a gente crê em Deus para sempre ter com o que ficar.
E, sem medo, meu Deus diz:

"Creia ou não, em qualquer tempo,
nada a ti pertence."

quarta-feira, 11 de março de 2009

terça-feira, 10 de março de 2009

em canto de pássaro

sonhei com um passarinho
voava alegre de um lado a outro
num grande círculo cantando para mim

no fim da tarde me lembrei
o quanto era lindo
aquele encanto ainda aqui.

sorri feliz saudade.

domingo, 8 de março de 2009

sábado, 7 de março de 2009

ela era uma infeliz, dizendo com a cara leve:
"eu sei viver sem poesia"

eu não tive nenhuma piedade.

terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

deita-me

Às vezes, eu canto de cansaço
na esperança que um anjo desça e me adormeça
antes que eu mesma tenha que trilhar o caminho do sono.
Sonho sempre em deitar-me sem sentidos, numa cama já quente,
que me leve mais rápido à noite, que me tome mais rápido do dia,
onde eu sobre, quase esquecida de mim mesma, por algumas horas
até o galo da cidade cantar, dissonante e apressado, o meu ficar de pé.

"quero deitar-me nos braços de um anjo de olhos castanhos e asas brancas"

desagua de março


quero ver tudo que são olhos saltar pela boca.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

sopra um vento

e, eu, água de rio querendo se misturar.
lembrei que ontem
quando eu fora um quadro
emudeci
procurei correspondência
dentro da minha moldura, tela e tinta.
depois, com a sala vazia,
desejei, sinceramente, ser menor.

forjei-me pintor.

no fim de tarde da praia só minha
caminhei com um macacão branco
sujo de tintas.
não havia paredes
eu fora as cores do quase acaso
no ilimitado tempo

o branco impregnado de pingos,
risco de uma mão desastrada de poucos olhos,
refez-me quadro.

assim fui. eternamente quadro.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

por entre as nossas margens passa um rio. águas densas violentas. vão levando tudo, arrancando, apartando e jogando nosso dois em nós mesmos. rio estreito, rio largo, rio distante. sua batida me avisa. a gente ainda se mistura. uma hora a gente se mistura com todo esse mistério.

quarta em cinzas


hoje é dia de rasgar a fantasia

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

quando faz silêncio

não sou boa assassina
tenho compaixão pelo silêncio da vítima
de longe, pode parecer até crueldade
mas não é minha a culpa
é da natureza do meu desejo

eu só sei matar aos poucos.

!?

Ele disse para mim:

"- A felicidade é um pássaro que pousa na descrença".

Um pequenino sorriso passou pelos meus lábios:

"- Eu não acredito em pássaros, mas que eles existem, existem."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009




eu amo esperando as paixões que se revelam
num pequeno faíscar.

são muitas centelhas a se separar pelo entoado brilho
entre o falso e o intenso.

pois que a paixão sempre será o encontro
o despertar do fogo até o último estalar.

há que ser lenha consumida junto,
com roda de tambores e dança de pés descalços.

não se finge, não resiste ao disfarçar. é verdade entregue.
pelos olhos, pelos poros.


domingo, 22 de fevereiro de 2009

incidental


vi o amor cair do cavalo
uma queda tão engraçada
que me fez chorar de rir

quase em segredo



a imaginação é um fantasma sorridente que persegue, apaixona e desespera. fantasma apenas forma, sem carne, osso e cheio de alma. com voz, olho e mãos imóveis à primeira vista. sou eu que imagino os passos do fantasma. ele vindo obstinado em minha direção. tenho paixão, tenho repulsa pelos seus passos, pelo seu não andar. de longe, de perto, passeando aqui. ele não existe. nasce, morre, dia e noite, na minha mente. eu sei, não tenho medo. de tudo que ele me faz, apenas não me assusta. às vezes, eu o vigio escondida, ele não percebe, distraído, falível, vivente. reparo seus olhos quase humanos e eles me parecem assustados. eu erro. dele, tenho compaixão.


as coisas só existem quando eu vejo, toco, sinto ou ouço dizer.
eu mesma sou o tempo. o tempo todo.

piadinha de carnaval

3:30h - vamos esperar trio de Jau Perri e aí a gente desce atrás dele.

(...)

- é aquele?
- não. deve ser o próximo.

(...)

- é aquele?
- não. deve ser o próximo.

seis trios depois...

4:30h - Tá, a gente espera mais dois, se não vier, desistimos.

passa mais um. não passa mais nada.

5:30h - Jau, "i have to go now, i have to go now", Jau!


(para Camilo que conferiu a programação,
para o trio "Godot" de Jau Perri que não chegou nunca)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

esperando Godot

vou esperar os sete dias acabar na avenida
vou esperar Godot não chegar nunca
vou esperar lá
com chuva, música e imensidão
lá, se não der sorte
pelo menos, não dá sono.
sete flores no cabelo
sete flores na avenida
sete vezes uma a uma escorregando pelo chão
nada prende os meus cabelos
nem sete mil flores
nem sete mil vezes
nem sete mil mãos

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

é carnaval, meu amor.
não me procure por debaixo da fantasia.
deixa o meu bailar. deixa o meu girar.
deixa desaguar a avenida.
até o final, eu te juro
tudo irá embora atrás do trio.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

dueto de mãos


"(...) uma mão tímida que, de leve, tocava o meu rosto e lentamente escorregava pela minha nuca. era quase beijo aquele toque a percorrer a minha pele. era quase lágrima a sensação inebriada de querer a abraçar-me com apaixonado acalentar. sussurros de pele umedecendo a boca. melodia do ar mais vivo a cada respirar. um arrepio indefeso se entregando a morte. tudo era toque. todo o espaço, toda dimensão, todos os sentidos. tudo se tinha e ia além das desenhadas linhas. primeiro apenas ela. depois, juntas, as quatro. mãos que olhavam, ouviam, falavam. mãos que sabiam transbordar."

nascente

quem é essa que irrompe
com seu capuz bordô florido e unhas grandes?
pés descalços, mãos sem marcas e os mesmos olhos escuros.
tem voz e vontade. quase não grita e ensurdece.

quem é ela?
desmemoriada, apátrida, desmedida.
sem lágrimas, desesperos e sorrisos.
mais estranha que todos os meus retratos.

ainda assim, não quero que vá.
ainda assim, não peço que fique.

me confunde a sua alma felina, ferina.
ela não me é dependente. tem vida. e rompe.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

idílio da beleza

nem todos estão aptos para tratar com a beleza. muitos não a reconhecem. outros cegamente a destroem. não posso condená-los. já deve ser castigo demais embrutecer. desejaria eu apenas desconhecê-los. não ver, do desencontro da beleza, morrerem as flores. se me fosse possível. se eu pudesse encontrar somente vidas com vista para o jardim.

para terminar bem a semana

"Algumas pessoas são mais interessantes de longe. Preserve-as."

Lembra?!

a gente passa o tempo todo procurando.
um dia, a coisa vem e nos acha.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

les extrémités


les extrémités se touchent*

se touchent

se touchent

se touchent

...


*Filosofo, sábio e escritor francês Blaise Pascal.
eu sei que os poemas não falam de mim e, ainda sim, os sinto. os poetas me fazem chorar. eu sei o porquê. não me escondo. já tive infância, ouvi todas as respostas, sei o quanto elas não resolvem. não tenho mais perguntas. eu sei. qualquer repetição me colocará em lágrimas. até o fim da poesia.

domingo, 8 de fevereiro de 2009


Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Vamos dar a despedida,
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
– Taperá,
Pode ser cruel a eternidade
Talequal o passarinho,
Eu ando em frente por sentir vontade
– Taperá,
Eu quis te convencer mas chega de insistir
Bateu asa foi-se embora,
Caberá ao nosso amor o que há de vir
– Taperá,
Pode ser a eternidade má
Deixou a pena no ninho
Caminho em frente pra sentir saudade
– Taperá...

(Janta, Marcelo Camelo
/ Macunaíma, Mário de Andrade)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

lago seco

decepção: dizem que a gente vive mesmo assim.

um bicho que passou todo tempo a salvo no verde de um lago e o vê, repetinamente, secar, ainda terá vida depois disto?

vi o menino do outro lado da rua.
era ele indo. eu, súbito, parei.
é assim, paixão sem o raciocinar.
quando ia atravessando, percebi.
havia no seu afastar obstinação.
talvez toda a obstinação.
(é ela que o vale e eu nunca me convenço)
valha-me Deus um dia entender.

vai menino. são tantas horas que não te deixo.
deve ser de paz, você levá-la como companheira.


"onde queres descanso, sou desejo.
onde sou só desejo, queres não."
as lembranças são como retratos que vão se desfazendo. tudo vira lembrança. aprendi a ter saudade muito cedo, sempre vendo as coisas desaparecerem no tempo. e, mesmo assim, errei. pensei que pelo menos uma coisa pudesse acompanhar a vida no tempo do eterno. eu achava que era esta a minha fé. hoje, vejo que era apenas uma esperança.

eu a tive.

e tudo mais eu tive.

agora entendo, Tristeza.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009


vi um pássaro derramado no chão.
nunca mais tinha visto um pássaro morto.
mas ontem eu dizia... e logo hoje, justo um pássaro.
ainda que eu não quisesse, repentinamente, aquilo foi como um grito.

gritos, de qualquer modo, sempre me assustam.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

"Os sentimentos são como pássaros.
Você pode ouvi-los assobiar da gaiola ou vê-los voar das janelas."

a vida não tem solução. tem fim.


Woke up this morning Singing an old, old Beatles song We're not
that strong, my lord You know we ain't that strong I hear
my voice among others In the break of day Hey, brothers
Say, brothers It's a long long long long way

Caetano
- in transa

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Quanto maior a razão, maior o cuidado.
A razão não apenas cega, também pode matar.

sobrevida


"Excuse me, do you have time?
Oh, sorry, i meant...
what time is it?"

A Persistência do Tempo - Salvador Dalí

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Mãe do espelho, do cabelo e do cheiro:
a nossa vida é do mar.

Sou sentimentos. Não posso assassiná-los.
São eles a própria fôrma da minha vida.
A natureza viva como um dia de sol, como um dia de chuva.
Há que se esperar passar. Há que se deixar chegar.
Eles vão, eles vem. Não serei eu a dizer quando.
Vou ficá-los até o último instante, até o último suspiro.
Ainda que espere a morte.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

turvas

todas as mulheres são de Tchekhov
todas as mulheres são de desordenadas águas
acontecem por debaixo da pele, por dentro das saias.
todas queimam. todas ardem. todas morrem afogadas.

cantiga de exílio


eu não vou não vou falar
não adianta eu lhe contar
nem do meu amor eterno
nem do meu jeito de amar

ninguém pode chegar antes
da minha música entornar
só a cachoira bela
pode o meu canto abafar

ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah
eu não posso mais cantar
ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah
não tenho por que dançar

quero agora que saiba
esta vida é do mar
um dia embale algumas histórias
como as do meu amar
entenda porque neste mundo
não havia mais como eu morar

ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah
não tinha para quem dançar
ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah
já não podia mais cantar

sábado, 31 de janeiro de 2009


esperança é um gafanhoto verde
e eu odeio insetos.

O significa ter um pensamento democrático? Qualquer falácia. Tudo que defendo sobre aceitação exclui a não-aceitação. Não aceito que não aceitem. E, para ser sincera, isto não é tudo. Hoje, reconheci a minha luta para não dizer às pessoas o que penso. Nunca mais havia me visto nesta batalha. Sem palavras. Continuo afiliada ao partido liberal radical. E, só posso dizer que é muito tosco querer ser exatamente aquilo que se é. Por isto, rendi-me à produção massificada de uma segunda natureza, que, sem muito esforço, posso crer que sempre esteve por aqui por dentro. Já sinto mais raiva. Já não tolero a imaturidade estúpida. Amo mais os animais e os livros. Não tenho paciência para a carência alheia. Não tenho vontade de olhar nos olhos de ninguém. Perdi e não estou derrotada. Isto é bom. Assim, não me sinto gente. E eu não quero ser gente. Eu não quero ser.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

eu quase não sei acabar as coisas.
deixo tudo se esvair.
penso. não sei se há outra forma.
quem me dera terminar.
quem me dera terminar tudo nesta palavra.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

quase novo, quase sempre.

Mesmo enxergando bem de longe, faço questão de me aproximar para ver. Vai-se além apenas tentando chegar mais perto. De longe, pode-se avistar os inícios e os fins. Mas, de longe, não existem meios. São tantos os meios.

Somente de perto se pode ver algo acontecer. Novo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

terça-feira, 27 de janeiro de 2009



ele, artista. eu, obra de sua arte.


um homem, às vezes, me parece demais.
todos os homens me parecem de menos.
todos os homens me parecem demais.
um homem, às vezes, me parece de menos.


não há certa quantidade.
são sempre sentidos. sem mais, nem menos.
não sei onde
pego
guardo
levo
deixo
quebro
as coisas.

não sei onde
sinto
quero
tenho
temo
mato
as coisas.

não culpo ninguém.

às vezes, deixo eu mesma falando sozinha.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A chuva espelha o cinza pela cidade.
Tem uma ambulância soando distante.
A rua onde estou está interditada.
Da janela, escuto as máquinas em obra.
São Paulo não parece domingo.
Eu não pareço São Paulo.
E ele nem aparece.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Vi o seu menino. Tinha olhos úmidos e sorrisos repentinos ao cantar para mim. De vez em quando, sei que ele vem me ninar. Nos braços dele, eu adormeço sob o encanto de acordar sem saber como lembrar as canções. Não os encontro. Só desperto com a falta. Mas, hoje eu o vi. E não vi perigo dele crescer. Vi que saberá apenas existir menino, enquanto novo você o puder viver.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

(dis)curso(s)

a dubiedade quase não serve para nada. 
é sobra inútil de significados.
mesmo assim, tem o charme e a sedução dos lábios do mistério.
engraçado perceber a grande ironia de se fazer muitos quando mais se deseja um único sentido.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

durmo Bahia, acordo São Paulo.
tão pouco o tempo...
até o mar se pode perder em uma noite.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

dia do sozinho

ou singelo timidamente feliz

dei um sorrisinho contemplativo à tristeza.

agora, a senhora pode ir.
eu já quero ficar sozinha.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

o guardador de carros


Eu não percebia, mas esperava o fim do sinal vermelho. Sentada no ônibus, com minha cabeça longe, voltada para o lado de fora da janela. Não teria notado nada disto, se não fosse ele a me olhar. Sentado em cima de um carro, olhou para mim com tanta insistência que me tirou os pensamentos. Fui automaticamente ao encontro de seu rosto. Nos olhamos. Ele esperou que eu virasse. Eu esperei que ele me ofendesse. E, como é dada a simplicidade, em poucos segundos de calma, reconhecemos de nós o olhar ingênuo. Ele sorriu. Eu sorri também. De lá, ele falou, enquanto apontava os ouvidos, "está ouvindo música, né?". Alargando o meu sorriso, balancei um sim. O sinal abriu. O ônibus se movimentou, desprendendo o nosso olhar, mas logo retornamos ao encontro. Ainda em pouca velocidade, o ônibus cruzou o carro parado ao meio-fio. Com outro sorriso, ele acenou um tchau. Contente, os devolvi. Era começo de tarde e este foi o meu primeiro motivo no dia para sorrir. Poucos minutos depois, desci do ônibus. Deu para sentir que fazia um belo sol.

domingo, 18 de janeiro de 2009

minha porta está aberta. sem cerimônias à entrada. empurram-se as gentes. é precipício e violência. eu já não posso. dói-me os olhos, dói-me os ouvidos. dôo-me. nada faço, nem espero. não há força para fechar-me. sou entregue, deduzida e abreviada. deixo. deixa que cansem os seus risos em meu juízo. matem-me a vida. já não importa o que me vale. não se sabe. não se quer. o abandono não se dará por pena. nem a mim poderá restar paixão. fico o tempo que aguentar a inteligência alheia determinando a burrice. sejam todos os olhos espertos e sem sentido. e fique comigo o vil ridículo papel de tola. que o quero louca e condenada cega, no lugar onde só enxergam gentes de olhos inúteis.
hoje, chovi muito. amanhã, não creio que farei sol.
que se dane o bom tempo. não sinto a menor vontade de estar alegre.
Mulher em frente ao espelho - Pablo Picasso

nem assim, só.
de muitos olhos-mundo.

sábado, 17 de janeiro de 2009

de quem. o inverso. de mim. tira a poesia.

ora dona desistência, ora dona insistência.
como sou tola, em minha guerra, divertindo-as.
não vejo. não ouço. apenas falo.
tropeço vaidosa sem saber servir-me.
já disse. eu sobro. eu estou em excesso.
perdoem-me. sem desculpas. caí em desconcerto.
não prometo ordem. mas. por diante.
talvez, deseje que apenas um "não" me baste.
quem dirá que sabe. o que pode um único "não".
que já nem seja ele fogo para a minha alegria.
nem também água para a minha tristeza.

neurastênica


No teatro, tudo é intencional.
E na vida? Não?

(maldita análise actancial!)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

depois que cresce, o que é vivo tende a morrer.
é assim, a vida nunca soube regressar.
mas, uma certa vez, eu me lembro
a morte tornou o que era grande, maior.
desde então, isto vem permeando um pouco de tudo que eu acredito.
e, mesmo assim, sem nunca me esquecer disto,
eu temo, de tudo quanto é amor, a morte.

meu caro apego

desde a hora que acordei, só ouço a voz da minha respiração. ela não me deixa esquecer. é um ressentir interminável do ontem. sem nenhuma piedade. e eu que pensei que poderia olhar o novo dia, mal ando, com o peso do ar a circular para dentro e para fora de mim. eu sei, eu sei. suplicaria um pouco de paciência, mas ela precisa de severidade, não me vê com confiança. sabe que eu esqueço. sabe que eu perdôo. sabe que eu transformo. sabe todo o esforço que eu naturalmente faço para não ver o acabar. nem eu entendo por que penso que preciso de um mundo inteiro que, quando de fato se vai, não me faz a menor falta. é sempre e não é medo. há pouco tempo atrás, eu acreditava que adorava mudanças, mas alguém me fez descobrir. das mudanças, eu gosto da hora em que todas as tralhas já foram reorganizadas. antes disto, para mim, é só trabalho. árduo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

foi bonita a festa, pá

Ele olhou em volta e se percebeu vazio. um vazio estranho, sem peso e sem liberdade. apenas um vazio no lugar de uma antiga verdade que se desfez e escorreu por seus olhos sem que ele pudesse evitar. Quando uma verdade vai, outra, que sempre parece mais forte, se faz como o novo meio possível. Ele não se deu conta da nova verdade, apenas tinha em mente a antiga, já esvaída, sem sangue. foi mesmo uma decepção da sua vontade, um afastamento do seu ser. ele estava assim, recusado, dentro e fora de si. sem desespero, sem agonia. A verdade quando morre tem a mesma qualidade do que nunca existiu. Ele sem saber apenas confirmava, buscando o que sem nome, havia perdido. então, é assim o desatar, pensou. Um laço desfeito não se parece mesmo com um laço. E a certa falta de sentidos daquela hora relembrou o outro torpor, o que fora motivo para a alegria se manifestar. era tudo verdade e toda ela fora mesmo muito alegre, até nos momentos em que tinha tristeza. A alegria é visita de poucos. ela se despede assim como a beleza, às vezes, antes mesmo do tempo passar. Ele sabia que não era mentira. mentira é o que se inventa para esconder a verdade. ele não tinha nada a esconder. então, aquilo, que viera sem propósito e sem motivo, era sim. sincero. era a verdade que só se conhece quanto se tem vontade dela. e isto, ele sempre teve. não seria ali o seu fim. Não é sabedoria de todos, ver uma verdade morrer, sem transformá-la em mentira. Era caso de esperança. próprio daquilo que não cabe ao homem ir buscar. ele estava resignado. e resignação era coisa que para ele tinha gosto muito parecido com tristeza. e ele a tinha, sem se preencher.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Tanto Mar
- Chico Buarque

legítima defesa

Sempre que é descoberta, a doença se fortalece. Reúne todas as suas forças para continuar a viver. Anônima, ela pode andar despreocupada, consumindo o sangue de cada dia. Mas, basta que pronunciem o seu nome uma única vez, para que ela, de dentro de onde estiver, defenda-se e ataque de todas as formas. É assim agora. Sempre tenho dor de cabeça, sempre enjôo, sempre queimo. É ela, a doença, lutando ambiciosamente pela própria vida. E eu, que passei um bom tempo tentando conviver com ela, até entendo a sua hostilidade. Eu nem a estou combatendo. Mas, ela tem muito medo de morrer.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

tudo que penso de primeira, não presta. se reagisse ao mundo com os meus primeiros pensamentos... riu sempre deles, ridículos à segunda vista. não é por sabedoria, na maior parte das vezes, é por sorte. eles não encontram destinos para ser realizar. então, eu os guardo para depois e, quando os procuro, já se foram. acabo sempre tendo que pensar tudo de novo. re-pensar.
Não tenho nenhuma certeza.
(Nem esta.)
Quando acho que não há nada, restam as imagens.
Elas ficam, são alimentadas por pouco a todo tempo.
Por isto, é tão dificil não pensar.
Quando quase acho o vazio, elas chegam, ocupando tudo.
São cores, contornos, sons, sensações.
Quase quero parar a minha mente.
Quase quero libertar as imagens.
Quase quero apagar-me.

Mas elas sempre me parecem belas. Eu as desejo, e não as acredito. Não deve haver motivos. Não é questão de fé acreditá-las.
Olho a olho - Edvard Munch

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


Quando aprendi a fazer bolo, ouvi dizer que se deveria bater a massa sempre para o mesmo lado. Alguns doces também, se fossem mexidos em sentidos diferentes, embolariam. Nunca entendi a fragilidade da massa dos doces, incapazes de suportar reviravoltas. É pura atenção. Como os amo, mexo-os observando.

Não é mesmo para entender.
É apenas para ter cuidado.

sonhei com ela, tão frágil. ela tão carne de mim.
ela precisa de cuidado. eu preciso cuidar dela.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Minha cabeça. Eu não vou dormir tão cedo. É cedo. Eu não vou dormir. Eu queria teu aconchego. É cedo. Eu não posso dormir. Meu estômago guarda os meus medos. É cedo. Segredos, ele não pára de sentir. Estou a niná-lo, mas sei. Tão cedo, ele não me deixa dormir.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

barulho do lado de dentro. silêncio do lado de fora.
silêncio do lado de dentro. barulho do lado de fora.
só se ouve a vontade.
Hoje amanheceu chuvendo...

"Diga a Maricotinha que eu mandei dizer que eu vou.
Eu vou."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Se fizer bom tempo amanhã Eu vou Mas se por exemplo chover Não vou Diga a Maricotinha que eu Mandei dizer que eu Não tô Não tô... não vou Se fizer bom tempo amanhã Eu vou Mas se por exemplo chover Não vou Uma chuvinha, redinha, cotinha
Aí... piorou Nem tô... nem vou
Se fizer bom tempo...

Maricotinha - Dorival Caymmi

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

a gente nunca sabe o que, de fato, nos une aos outros. só sabe que tem diferenças. tem os que a gente gosta. tem os que a gente precisa. tem os que a gente carrega. mais, menos, bem; mais, menos, mal.

Teimosia romântica

- Certos desejos são como se deitar sob o céu para ver a última estrela aparecer.

(...)

Nem por um milagre, o olho humano burro o realizará.
Mas, se insiste, vai, minha filha, deita.
Deus ajude que não lhe caia uma estrela na cabeça.
Deus que lhe ajude!